Contra o filme único

1 de Fevereiro de 2017

•    Parece-nos claro que, em “Brecht para principiantes”, Saguenail adere à rejeição didática do atavismo proposta pelo dramaturgo germânico no duplo texto que o filme encena: uma mudança de situação existencial tem de ser abordada com um pensamento distinto daquele com que se abordava o anterior estado das coisas. Ora, se a vida não pode ser satisfatoriamente conduzida por um pensamento único e imutável, também a criação artística (que, em última análise, é criação de pensamento) deve pugnar contra todas as formas de univocidade.

•    O leitor dos textos críticos de Saguenail estará familiarizado com a sua batalha contra a hegemonia do modelo cinematográfico hollywoodiano, praticamente o modelo único da história ocidental da sétima arte.
Todavia, enquanto espetador da sua obra enquanto cineasta, o que nos impressiona é o facto de esse combate contra o filme único (combate tão político quanto filosófico) ter sido desde sempre articulado como uma tentativa de renovação daquilo que constitui a experiência de assistir a um filme. Como se demonstra em “Ma’s sin”, são de tal modo diversificados e insólitos os processos mentais que vitimizam um indivíduo enquanto este assiste a uma projeção cinematográfica, que mais vale realizar cada filme tomando essa pluralidade potencial em séria consideração.

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APROXIMAÇÕES (to be continued)

21 de Setembro de 2016

•    No princípio, era o direito. Toda a gente sabia, por exemplo, o que era um cabeça-de-casal. Mas a justiça anda por autoestradas de amargura e por isso, e por enquanto, e porque até cura, a malta tem-se virado para a medicina. E é vê-los, nos cafés e nas enfermarias, tu cá tu lá com a reação vagal da criatura que menos golos marca em Portugal ou com a tendinose rotuliana do mais alto magistrado da nação.
Este ensaio tem a suprema ambição de funcionar ao contrário disso. É um conjunto de aproximações amadoras àquilo que o seu autor considera ser o seu verdadeiro trabalho. É um levantamento de hipóteses.

•    O ensaio tem também a ambição de ser in progress. Mas como nem autor nem leitor têm vida para obras de uma vida, foi encontrada a solução de compromisso de se partilhar o esboço de Santa Engrácia sempre que os seus novos pontos de chegada ascenderem a pelo menos o número de trinta (podem ser mais, claro, mas nunca menos). A publicação irá sendo ampliada em estrita obediência a essa lei. Em cada regresso ao gesto de partilha, poderão verificar-se correções e reescritas do que anteriormente havia sido proposto.
O número trinta foi escolhido aleatoriamente.

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A virtude segundo Heinrich von Kleist

8 de Agosto de 2016

•    Ternuras e desejos obscenos, cada vez mais fáceis de satisfazer (pelo menos os segundos).
Mas também a solidariedade na diversão: a noite, a praia… Diz-se nos filmes americanos que o homem deve saber providenciar entretenimento para a sua mulher!
E conforme a coisa se vai tornando séria, começa a falar-se de filhos, de ofícios e de como se há de passar as férias. E de dinheiro, claro, o eterno dinheiro (tão eterno quanto as baratas).

•    O namoro parece uma coisa assim sensual e pragmática.
Mas, na verdade, não há conversa de chacha que não traga implícita uma discussão filosófica sobre o que significa amar, sobre o proveito de se fazer ou não projetos de vida e sobre a moralidade com que esta deve afinal ser vivida.
Podemos hoje sorrir quando lemos a seriíssima correspondência enviada pelo escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811) à sua noiva Wilhelmine von Zenge, mas, na verdade, ele limitou-se a tornar exposto tudo aquilo que os namorados julgam conseguir manter pueril nos seus relacionamentos não intelectuais.
Eram outros tempos, de qualquer modo…
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Nenhum lugar para brincar

12 de Janeiro de 2016

•    A sensibilidade de Friedrich Wilhelm Murnau (1888 – 1931) foi desenvolvida no contexto do cinema alemão da década de vinte do século passado. Como todos os realizadores que conviveram de perto com as teorias e as práticas ditas expressionistas, Murnau cultivou um tratamento exacerbado da iluminação dos cenários dos seus filmes, dando à luz um papel discursivo capaz de complementar e até modificar o sentido das narrativas que decorriam nesses cenários.
Partilhamos dois exemplos especialmente bem conseguidos desse rigor inventivo:

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Foi tão gentil em ter permitido que eu me viesse!

10 de Outobro de 2015

Os contos de fadas são quase sempre protagonizados por uma rapariga ou um rapaz de origens humildes que, em virtude de um processo de enamoramento e consequente desenlace matrimonial, ascendem à posição de princesa ou de príncipe. O sucesso social que coroa essas narrativas é, portanto, o indício figurado inequívoco de um crescimento psíquico.

No seu celebérrimo “Pygmalion”, texto dramático que talvez não precisasse de ter sido passado à forma de comédia musical, George Bernard Shaw cria uma personagem feminina mais próxima da Cinderela do que da estátua do mito grego no qual se inspira; atribui-lhe, como alvo da sua ação, um baile na presença de figuras monárquicas; e faz depender a relação da rapariga com aquele que por momentos parece ser o seu verdadeiro príncipe das relações que ambos mantêm com as suas figuras parentais.

Muito mais importante do que isso, Shaw parece ter entrevisto aquela desvairada hipótese que uma vez formulámos de uma leitura coperniciana do pensamento metafórico: poderá a emancipação social ser configurada a partir dos termos da emancipação psíquica do indivíduo? A resposta, afirmativa, reside no mito contemporâneo da educação universal. O pressuposto de que se pode agitar o status quo classista de uma comunidade por um método que, pelo menos na aparência, prescinde dos seus determinismos infraestruturais, tem todas as ambiguidades e fragilidades que permitem que ele seja ingenuamente incensado ou cinicamente reduzido a um conto de fadas.

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Em nome da imaginação

8 de Agosto de 2015

Antes de conhecer a carne e o osso da pessoa e os filmes que a carne e o osso iam fazendo, conheci o Saguenail como homem de palavra, mais precisamente como crítico e teorizador de cinema na revista portuense “A grande ilusão”. O título renoiriano previu a estima e a colaboração que se prolongariam por mais de duas décadas, mas julgo ser importante introduzir este breve ensaio assumindo que, das leituras dos textos escritos por Saguenail nessa publicação, resultou desde logo um pequeno revolvimento na maquinaria do meu intelecto. A verdade é que passei a considerar que, muito para além de qualquer discurso sobre qualidade (conceito em todo o caso muito dúbio), a amizade a um filme se deve pautar pela relação que ele consiga estabelecer com o pensamento específico do espetador, ou seja, a adesão a obras como “A palavra” de Dreyer, “O anjo exterminador” de Buñuel ou “Viver a sua vida” de Godard deverá ser indício não tanto da distinção social do espetador cultivado, mas sim dos desassossegos, sonhos e reivindicações com que ele se relaciona com o mundo. Tenho-me mantido fiel a esse modo de vida

O Saguenail convidou-me para fazer a apresentação dos últimos três livros que escreveu, sobre os quais pesa a circunstância de terem sido concretizados após a decisão de silêncio criativo que o seu autor havia tomado (e que durante algum tempo cumpriu). É com sentido de humor que o primeiro deles se intitula “incontinence verbale”: parece que a morte, mesmo simbólica, mantém na sua mão o queijo que daria plenos poderes àquele que maneja a faca. Não é isso que todos vimos em “O sabor da cereja?”

Como a apresentação dos livros teve um caráter oral, foi-me pedido que alinhavasse por escrito as ideias partilhadas e é disso que se trata neste artigo.

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Contos que me contavam

17 de Janeiro de 2015

Era uma vez um rapaz que tinha sido abandonado pelos contos de fadas e que sabia ser agora sua a vez de os contar, após a experiência de uma vida mal contada. Esse rapaz chamava-se Pedro: será então esse o nome da primeira pedra com que se acrescentarão alguns pontos a uma tão pessoal e intransmissível tradição. Ler ensaio completo »

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Dois filmes para despir Anna Karina

13 de Outobro de 2014

No fim da década de 50 do século passado, Jean-Luc Godard chegou à realização cinematográfica com a vontade nítida de propor uma nova imagem dos seres humanos. Tal propósito muito deveu à inquietação particular que o caracterizava enquanto indivíduo e intelectual (e que, com as naturais flutuações de eficácia dos resultados criativos, se manteve atuante até ao momento presente), mas foi igualmente inseparável do período histórico que recebeu a chamada Nouvelle Vague do cinema francês, caracterizado pelo pressentimento político, tão genuíno quanto disseminado, de que talvez fosse possível reescrever o destino da comunidade humana, o que culminou com as lendárias manifestações que, em maio de 68, congregaram jovens, intelectuais e operários em protesto e utopia nas ruas de Paris. Ou seja, Godard é o produto de um mundo que se sentia jovem (algo que talvez não possamos reivindicar para a nossa era), e não será por acaso que mesmo um cineasta considerado conservador como Eric Rohmer (um dos companheiros de Godard no movimento da Nouvelle Vague) sempre tenha demonstrado um particular empenho e uma habilidade luminosa para fazer e refazer retratos da juventude (já para não falarmos da fidelidade que François Truffaut, outro autor saído desse lote, manteve em relação ao tema infância…). Tal ambiente permitiu e instigou Godard a adotar, perante o cinema, a atitude de quem está sempre em estado de esboço, em estado de busca inquieta e inacabada, em estado de recomeço. Ler ensaio completo »

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Pequenos textos sobre a liberdade?

17 de Maio de 2014

Um indivíduo pode nunca ter ido a Nova Iorque. Mas se com ele partilharem uma imagem dessa cidade (imagem não necessariamente visual), ao seu espírito acorrerão de imediato memórias de alguns passos de vidas que tal indivíduo não viveu: a receção feita pela Estátua da Liberdade ao emigrante atravancado de sonhos, a beleza da skyline de Manhattan vista de longe, o réveillon em Times Square difundido para todo o mundo, a vida sexual de Woody Allen igualmente difundida para todo o mundo, talvez a dama de Xangai morrendo em Chinatown.

Num poema oportunamente intitulado “Poema”, a escritora norte-americana Elizabeth Bishop confere à obra de arte o poder de reunir o autor e o seu destinatário em torno da possibilidade de ambos reconhecerem um lugar, o lugar que a obra ao mesmo tempo representa e (re)cria. Esse reconhecimento é possível na medida em que a arte lida sobretudo com as implicações míticas que se desprendem de cada lugar como uma série de harmónicos se desprende de um som. Frequentemente considerada uma observadora realista (o realismo tem tanto prestígio que passa por cima de todo o espírito crítico), a verdade é que, no texto de abertura daquele que será porventura o seu livro mais célebre, “Geography III”, após um conjunto de definições básicas da disciplina que dá título à recolha, a poeta pergunta com ambiguidade calculada: “Em que direção, a partir do centro do / mapa, está a Ilha?” (trad. Maria de Lourdes Guimarães) Ou seja, ao usar um artigo definido sem definir qual o espaço insular concreto a que eventualmente se refere, a autora de imediato se coloca no âmbito do mito, sem que isso implique a queda num simbolismo convencional. Muito pelo contrário, a mitologia geográfica de Bishop revela-se tão profundamente idiossincrática que consegue roçar o absurdo.

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This is not working: either we go back to animality or we go forward to love.

25 de Fevereiro de 2014

É certo que o Homem só sabe falar do Homem. Tal evidência não se prolonga, contudo, no reflexo de um amor à humanidade. Ou talvez possa esse afeto ser tão exigente e tão pouco sentimental que faz coincidir o amor ao que a humanidade poderia ser com o nojo perante aquilo que, na verdade, ela é.

Publicado pelo anglo-irlandês Jonathan Swift na primeira metade do século XVIII, o relato d’ “As viagens de Gulliver” (que faz as delícias de quem gosta de atribuir mais ou menos infância aos géneros literários) apresenta o seu sarcástico autor na vertigem da desconstrução do orgulho humano. Dito de outro modo, nada parece pôr o escritor tão fora de si como a presunção que o ser humano tem de que a sua espécie é, do ponto de vista da qualidade evolucional, a maior das espécies.

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