» Literatura «

Ensaios de um autor rigorosamente agnóstico

A virtude segundo Heinrich von Kleist

8 de Agosto de 2016

•    Ternuras e desejos obscenos, cada vez mais fáceis de satisfazer (pelo menos os segundos).
Mas também a solidariedade na diversão: a noite, a praia… Diz-se nos filmes americanos que o homem deve saber providenciar entretenimento para a sua mulher!
E conforme a coisa se vai tornando séria, começa a falar-se de filhos, de ofícios e de como se há de passar as férias. E de dinheiro, claro, o eterno dinheiro (tão eterno quanto as baratas).

•    O namoro parece uma coisa assim sensual e pragmática.
Mas, na verdade, não há conversa de chacha que não traga implícita uma discussão filosófica sobre o que significa amar, sobre o proveito de se fazer ou não projetos de vida e sobre a moralidade com que esta deve afinal ser vivida.
Podemos hoje sorrir quando lemos a seriíssima correspondência enviada pelo escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811) à sua noiva Wilhelmine von Zenge, mas, na verdade, ele limitou-se a tornar exposto tudo aquilo que os namorados julgam conseguir manter pueril nos seus relacionamentos não intelectuais.
Eram outros tempos, de qualquer modo…
Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

Foi tão gentil em ter permitido que eu me viesse!

10 de Outobro de 2015

Os contos de fadas são quase sempre protagonizados por uma rapariga ou um rapaz de origens humildes que, em virtude de um processo de enamoramento e consequente desenlace matrimonial, ascendem à posição de princesa ou de príncipe. O sucesso social que coroa essas narrativas é, portanto, o indício figurado inequívoco de um crescimento psíquico.

No seu celebérrimo “Pygmalion”, texto dramático que talvez não precisasse de ter sido passado à forma de comédia musical, George Bernard Shaw cria uma personagem feminina mais próxima da Cinderela do que da estátua do mito grego no qual se inspira; atribui-lhe, como alvo da sua ação, um baile na presença de figuras monárquicas; e faz depender a relação da rapariga com aquele que por momentos parece ser o seu verdadeiro príncipe das relações que ambos mantêm com as suas figuras parentais.

Muito mais importante do que isso, Shaw parece ter entrevisto aquela desvairada hipótese que uma vez formulámos de uma leitura coperniciana do pensamento metafórico: poderá a emancipação social ser configurada a partir dos termos da emancipação psíquica do indivíduo? A resposta, afirmativa, reside no mito contemporâneo da educação universal. O pressuposto de que se pode agitar o status quo classista de uma comunidade por um método que, pelo menos na aparência, prescinde dos seus determinismos infraestruturais, tem todas as ambiguidades e fragilidades que permitem que ele seja ingenuamente incensado ou cinicamente reduzido a um conto de fadas.

Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

Em nome da imaginação

8 de Agosto de 2015

Antes de conhecer a carne e o osso da pessoa e os filmes que a carne e o osso iam fazendo, conheci o Saguenail como homem de palavra, mais precisamente como crítico e teorizador de cinema na revista portuense “A grande ilusão”. O título renoiriano previu a estima e a colaboração que se prolongariam por mais de duas décadas, mas julgo ser importante introduzir este breve ensaio assumindo que, das leituras dos textos escritos por Saguenail nessa publicação, resultou desde logo um pequeno revolvimento na maquinaria do meu intelecto. A verdade é que passei a considerar que, muito para além de qualquer discurso sobre qualidade (conceito em todo o caso muito dúbio), a amizade a um filme se deve pautar pela relação que ele consiga estabelecer com o pensamento específico do espetador, ou seja, a adesão a obras como “A palavra” de Dreyer, “O anjo exterminador” de Buñuel ou “Viver a sua vida” de Godard deverá ser indício não tanto da distinção social do espetador cultivado, mas sim dos desassossegos, sonhos e reivindicações com que ele se relaciona com o mundo. Tenho-me mantido fiel a esse modo de vida

O Saguenail convidou-me para fazer a apresentação dos últimos três livros que escreveu, sobre os quais pesa a circunstância de terem sido concretizados após a decisão de silêncio criativo que o seu autor havia tomado (e que durante algum tempo cumpriu). É com sentido de humor que o primeiro deles se intitula “incontinence verbale”: parece que a morte, mesmo simbólica, mantém na sua mão o queijo que daria plenos poderes àquele que maneja a faca. Não é isso que todos vimos em “O sabor da cereja?”

Como a apresentação dos livros teve um caráter oral, foi-me pedido que alinhavasse por escrito as ideias partilhadas e é disso que se trata neste artigo.

Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

Contos que me contavam

17 de Janeiro de 2015

Era uma vez um rapaz que tinha sido abandonado pelos contos de fadas e que sabia ser agora sua a vez de os contar, após a experiência de uma vida mal contada. Esse rapaz chamava-se Pedro: será então esse o nome da primeira pedra com que se acrescentarão alguns pontos a uma tão pessoal e intransmissível tradição. Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

Pequenos textos sobre a liberdade?

17 de Maio de 2014

Um indivíduo pode nunca ter ido a Nova Iorque. Mas se com ele partilharem uma imagem dessa cidade (imagem não necessariamente visual), ao seu espírito acorrerão de imediato memórias de alguns passos de vidas que tal indivíduo não viveu: a receção feita pela Estátua da Liberdade ao emigrante atravancado de sonhos, a beleza da skyline de Manhattan vista de longe, o réveillon em Times Square difundido para todo o mundo, a vida sexual de Woody Allen igualmente difundida para todo o mundo, talvez a dama de Xangai morrendo em Chinatown.

Num poema oportunamente intitulado “Poema”, a escritora norte-americana Elizabeth Bishop confere à obra de arte o poder de reunir o autor e o seu destinatário em torno da possibilidade de ambos reconhecerem um lugar, o lugar que a obra ao mesmo tempo representa e (re)cria. Esse reconhecimento é possível na medida em que a arte lida sobretudo com as implicações míticas que se desprendem de cada lugar como uma série de harmónicos se desprende de um som. Frequentemente considerada uma observadora realista (o realismo tem tanto prestígio que passa por cima de todo o espírito crítico), a verdade é que, no texto de abertura daquele que será porventura o seu livro mais célebre, “Geography III”, após um conjunto de definições básicas da disciplina que dá título à recolha, a poeta pergunta com ambiguidade calculada: “Em que direção, a partir do centro do / mapa, está a Ilha?” (trad. Maria de Lourdes Guimarães) Ou seja, ao usar um artigo definido sem definir qual o espaço insular concreto a que eventualmente se refere, a autora de imediato se coloca no âmbito do mito, sem que isso implique a queda num simbolismo convencional. Muito pelo contrário, a mitologia geográfica de Bishop revela-se tão profundamente idiossincrática que consegue roçar o absurdo.

Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

This is not working: either we go back to animality or we go forward to love.

25 de Fevereiro de 2014

É certo que o Homem só sabe falar do Homem. Tal evidência não se prolonga, contudo, no reflexo de um amor à humanidade. Ou talvez possa esse afeto ser tão exigente e tão pouco sentimental que faz coincidir o amor ao que a humanidade poderia ser com o nojo perante aquilo que, na verdade, ela é.

Publicado pelo anglo-irlandês Jonathan Swift na primeira metade do século XVIII, o relato d’ “As viagens de Gulliver” (que faz as delícias de quem gosta de atribuir mais ou menos infância aos géneros literários) apresenta o seu sarcástico autor na vertigem da desconstrução do orgulho humano. Dito de outro modo, nada parece pôr o escritor tão fora de si como a presunção que o ser humano tem de que a sua espécie é, do ponto de vista da qualidade evolucional, a maior das espécies.

Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

Tradução da Cena da Varanda de “Romeu e Julieta”

30 de Dezembro de 2013

[Surge Julieta em cima]

ROMEU:
Calma!, que luz é aquela na janela?
É o leste e traz Julieta como um sol.
Sobe, formoso sol, e mata a lua,
Que sofre da anemia do ciúme,
Pois tu, sua devota, és mais formosa:
Não ‘stejas ao serviço da ciumenta:
Seu hábito vestal é doença verde
Que só os tolos usam, tira-o já.

Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

O imenso erro de Jesus Cristo

24 de Setembro de 2013

1.
O meu nome é Pedro Ludgero. Tenho 41 anos de idade no ano 2013 depois de Cristo. Sou de raça branca e pertenço ao sexo masculino. Sou português e vivo numa das maiores cidades de Portugal (no Ocidente, portanto). Pertenço à classe média. A minha educação teve uma componente católica não muito intensa. Não adiro à moral sexual tradicional. Tenho estudos universitários. Profissionalmente, estou ligado ao ramo da educação. Ainda que não reconhecido criticamente, sou escritor e cineasta. Leio muito. Do ponto de vista político, sinto-me próximo das ideologias de esquerda, mas voto em branco há mais de dez anos. Do ponto de vista religioso, reconheço-me sob a designação genérica do agnosticismo.

2.
O presente ensaio é o resultado de uma leitura atenta dos quatro Evangelhos canónicos, os que estão compilados no Novo Testamento da Bíblia, sem recurso a qualquer comentário sobre esses textos ou a qualquer leitura sobre a dimensão histórica dos eventos por eles narrados. A edição utilizada foi a da Difusora Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos, na revisão do ano de 2003.

Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

Ler (ensaio para a Joaninha)

1 de Setembro de 2013

POEMA DO COMEÇO (de António Maria Lisboa)

Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objeto estranho na algibeira
– trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

Querida Joaninha,

Na história de todas as famílias há sempre a figura do tio milionário que deixa uma farta herança aos seus descendentes, às vezes mesmo a tempo de os safar de uma aflição, outras vezes à maneira de um doce que não se pediu nem previu mas cujo sabor se revela maior precisamente por ser gratuito. Não tendo eu fortuna para partilhar com quem a mereça, esboço neste texto uma outra forma de deixar riqueza e de, deixando-a publicamente, te fazer única testamentária afetiva.

Na altura em que escrevo este ensaio, muito antes de ele poder ser uma eventual leitura tua, tens três anos e meio de idade e achas que o gosto do tio Pedro por livros é, no mínimo, uma característica bizarra. Como pode o livro competir com a gata Clara, a piscina do Algarve ou as corridas com os colegas do infantário? Quanto mais cresceres, mais terás a convicção da falta de sensualidade física que acompanha o ato de ler. Não há suficientes imagens da Marilyn ou do James Dean apanhados em flagrante leitura e, pelo contrário, são demasiadas as confirmações que a realidade fornece do cliché de um rato de biblioteca obeso, pouco sofisticado na atitude e no vestir, e algo privado de competências de sociabilidade. Será preciso ler?

Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf

Algumas traduções de Rimbaud

29 de Setembro de 2012

Neste post, publicam-se sete traduções de poemas de Arthur Rimbaud feitas por Pedro Ludgero, e que servem de textos de apoio ao ensaio “O princípio de desvalorização da transcendência”, partilhado neste site a 12 de novembro do ano de 2011. Ler ensaio completo »

download do ensaio em pdf