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De modo algum filosofia

APROXIMAÇÕES (to be continued)

21 de Setembro de 2016

•    No princípio, era o direito. Toda a gente sabia, por exemplo, o que era um cabeça-de-casal. Mas a justiça anda por autoestradas de amargura e por isso, e por enquanto, e porque até cura, a malta tem-se virado para a medicina. E é vê-los, nos cafés e nas enfermarias, tu cá tu lá com a reação vagal da criatura que menos golos marca em Portugal ou com a tendinose rotuliana do mais alto magistrado da nação.
Este ensaio tem a suprema ambição de funcionar ao contrário disso. É um conjunto de aproximações amadoras àquilo que o seu autor considera ser o seu verdadeiro trabalho. É um levantamento de hipóteses.

•    O ensaio tem também a ambição de ser in progress. Mas como nem autor nem leitor têm vida para obras de uma vida, foi encontrada a solução de compromisso de se partilhar o esboço de Santa Engrácia sempre que os seus novos pontos de chegada ascenderem a pelo menos o número de trinta (podem ser mais, claro, mas nunca menos). A publicação irá sendo ampliada em estrita obediência a essa lei. Em cada regresso ao gesto de partilha, poderão verificar-se correções e reescritas do que anteriormente havia sido proposto.
O número trinta foi escolhido aleatoriamente.

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Em nome da imaginação

8 de Agosto de 2015

Antes de conhecer a carne e o osso da pessoa e os filmes que a carne e o osso iam fazendo, conheci o Saguenail como homem de palavra, mais precisamente como crítico e teorizador de cinema na revista portuense “A grande ilusão”. O título renoiriano previu a estima e a colaboração que se prolongariam por mais de duas décadas, mas julgo ser importante introduzir este breve ensaio assumindo que, das leituras dos textos escritos por Saguenail nessa publicação, resultou desde logo um pequeno revolvimento na maquinaria do meu intelecto. A verdade é que passei a considerar que, muito para além de qualquer discurso sobre qualidade (conceito em todo o caso muito dúbio), a amizade a um filme se deve pautar pela relação que ele consiga estabelecer com o pensamento específico do espetador, ou seja, a adesão a obras como “A palavra” de Dreyer, “O anjo exterminador” de Buñuel ou “Viver a sua vida” de Godard deverá ser indício não tanto da distinção social do espetador cultivado, mas sim dos desassossegos, sonhos e reivindicações com que ele se relaciona com o mundo. Tenho-me mantido fiel a esse modo de vida

O Saguenail convidou-me para fazer a apresentação dos últimos três livros que escreveu, sobre os quais pesa a circunstância de terem sido concretizados após a decisão de silêncio criativo que o seu autor havia tomado (e que durante algum tempo cumpriu). É com sentido de humor que o primeiro deles se intitula “incontinence verbale”: parece que a morte, mesmo simbólica, mantém na sua mão o queijo que daria plenos poderes àquele que maneja a faca. Não é isso que todos vimos em “O sabor da cereja?”

Como a apresentação dos livros teve um caráter oral, foi-me pedido que alinhavasse por escrito as ideias partilhadas e é disso que se trata neste artigo.

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This is not working: either we go back to animality or we go forward to love.

25 de Fevereiro de 2014

É certo que o Homem só sabe falar do Homem. Tal evidência não se prolonga, contudo, no reflexo de um amor à humanidade. Ou talvez possa esse afeto ser tão exigente e tão pouco sentimental que faz coincidir o amor ao que a humanidade poderia ser com o nojo perante aquilo que, na verdade, ela é.

Publicado pelo anglo-irlandês Jonathan Swift na primeira metade do século XVIII, o relato d’ “As viagens de Gulliver” (que faz as delícias de quem gosta de atribuir mais ou menos infância aos géneros literários) apresenta o seu sarcástico autor na vertigem da desconstrução do orgulho humano. Dito de outro modo, nada parece pôr o escritor tão fora de si como a presunção que o ser humano tem de que a sua espécie é, do ponto de vista da qualidade evolucional, a maior das espécies.

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O imenso erro de Jesus Cristo

24 de Setembro de 2013

1.
O meu nome é Pedro Ludgero. Tenho 41 anos de idade no ano 2013 depois de Cristo. Sou de raça branca e pertenço ao sexo masculino. Sou português e vivo numa das maiores cidades de Portugal (no Ocidente, portanto). Pertenço à classe média. A minha educação teve uma componente católica não muito intensa. Não adiro à moral sexual tradicional. Tenho estudos universitários. Profissionalmente, estou ligado ao ramo da educação. Ainda que não reconhecido criticamente, sou escritor e cineasta. Leio muito. Do ponto de vista político, sinto-me próximo das ideologias de esquerda, mas voto em branco há mais de dez anos. Do ponto de vista religioso, reconheço-me sob a designação genérica do agnosticismo.

2.
O presente ensaio é o resultado de uma leitura atenta dos quatro Evangelhos canónicos, os que estão compilados no Novo Testamento da Bíblia, sem recurso a qualquer comentário sobre esses textos ou a qualquer leitura sobre a dimensão histórica dos eventos por eles narrados. A edição utilizada foi a da Difusora Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos, na revisão do ano de 2003.

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Ler (ensaio para a Joaninha)

1 de Setembro de 2013

POEMA DO COMEÇO (de António Maria Lisboa)

Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objeto estranho na algibeira
– trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

Querida Joaninha,

Na história de todas as famílias há sempre a figura do tio milionário que deixa uma farta herança aos seus descendentes, às vezes mesmo a tempo de os safar de uma aflição, outras vezes à maneira de um doce que não se pediu nem previu mas cujo sabor se revela maior precisamente por ser gratuito. Não tendo eu fortuna para partilhar com quem a mereça, esboço neste texto uma outra forma de deixar riqueza e de, deixando-a publicamente, te fazer única testamentária afetiva.

Na altura em que escrevo este ensaio, muito antes de ele poder ser uma eventual leitura tua, tens três anos e meio de idade e achas que o gosto do tio Pedro por livros é, no mínimo, uma característica bizarra. Como pode o livro competir com a gata Clara, a piscina do Algarve ou as corridas com os colegas do infantário? Quanto mais cresceres, mais terás a convicção da falta de sensualidade física que acompanha o ato de ler. Não há suficientes imagens da Marilyn ou do James Dean apanhados em flagrante leitura e, pelo contrário, são demasiadas as confirmações que a realidade fornece do cliché de um rato de biblioteca obeso, pouco sofisticado na atitude e no vestir, e algo privado de competências de sociabilidade. Será preciso ler?

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O princípio de desvalorização da transcendência

12 de Novembro de 2011

1.

Em “Alchimie du verbe”, um dos capítulos de “Une saison en enfer”, Arthur Rimbaud parece colocar um anátema sobre a sua obra poética, ou, pelo menos, sobre parte de tal produção. E no texto que encerra essa autobiografia sobretudo espiritual, o pol(iss)émico “Adieu”, o desprezo parece mesmo inaugurar o silêncio criativo (demasiado) lendário do jovem autor: um heróico adeus à poesia.

Tudo isso está hoje mais do que desmitificado, especialmente porque o estudo da vida e da obra rimbaldianas já provou que a maior parte dos poemas em prosa das “Illuminations” foram escritos ao mesmo tempo ou até depois desse putativo testamento literário. Como explicar o aparente recuo de um autor tão dado aos gestos teatralmente definitivos?

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Falar do que se gosta

22 de Setembro de 2010

Para sempre é sempre por um triz

Chico Buarque de Hollanda

Em “In vino veritas”, Soren Kierkegaard sugere que o amor é, de certo modo, um assunto não pensável. No fundo, o que o dinamarquês estava a pedir era a categoria do inconsciente psicológico, do inexplicável sobre o qual o amor sustenta as suas mais determinadas justificações, categoria essa que só haveria de ser intuída alguns anos mais tarde. De qualquer maneira, “In vino veritas” é uma rescrita (ou uma recordação, para falarmos de um modo mais kierkegaardiano) de “O banquete” de Platão, texto fundamental e mítico, no qual o pensador ateniense debate, precisamente, a tensão entre a vontade que a filosofia tem de sistematizar a diversidade de fenómenos num “mesmo” universal e um sentimento como o amor, cuja definição parte da evidência do “diferente”: amar é aceitar ser invadido pela alteridade. Claro que, sendo a Grécia antiga o momento de descoberta apaixonada das virtudes da filosofia, Platão não poderia ter chegado ao mesmo grau de dúvida de Kierkegaard, mas como era um dramaturgo excepcional (numa sociedade de dramaturgos excepcionais), o seu diálogo teórico tem uma reserva de ambiguidade e ironia assinaláveis que o tornam um prazer de leitura neste mesmo presente em que escrevemos.

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