Arquivo dos ensaios sobre ‘Tradução’

Pequenos textos sobre a liberdade?

17 de Maio de 2014

Um indivíduo pode nunca ter ido a Nova Iorque. Mas se com ele partilharem uma imagem dessa cidade (imagem não necessariamente visual), ao seu espírito acorrerão de imediato memórias de alguns passos de vidas que tal indivíduo não viveu: a receção feita pela Estátua da Liberdade ao emigrante atravancado de sonhos, a beleza da skyline de Manhattan vista de longe, o réveillon em Times Square difundido para todo o mundo, a vida sexual de Woody Allen igualmente difundida para todo o mundo, talvez a dama de Xangai morrendo em Chinatown.

Num poema oportunamente intitulado “Poema”, a escritora norte-americana Elizabeth Bishop confere à obra de arte o poder de reunir o autor e o seu destinatário em torno da possibilidade de ambos reconhecerem um lugar, o lugar que a obra ao mesmo tempo representa e (re)cria. Esse reconhecimento é possível na medida em que a arte lida sobretudo com as implicações míticas que se desprendem de cada lugar como uma série de harmónicos se desprende de um som. Frequentemente considerada uma observadora realista (o realismo tem tanto prestígio que passa por cima de todo o espírito crítico), a verdade é que, no texto de abertura daquele que será porventura o seu livro mais célebre, “Geography III”, após um conjunto de definições básicas da disciplina que dá título à recolha, a poeta pergunta com ambiguidade calculada: “Em que direção, a partir do centro do / mapa, está a Ilha?” (trad. Maria de Lourdes Guimarães) Ou seja, ao usar um artigo definido sem definir qual o espaço insular concreto a que eventualmente se refere, a autora de imediato se coloca no âmbito do mito, sem que isso implique a queda num simbolismo convencional. Muito pelo contrário, a mitologia geográfica de Bishop revela-se tão profundamente idiossincrática que consegue roçar o absurdo.

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Tradução da Cena da Varanda de “Romeu e Julieta”

30 de Dezembro de 2013

[Surge Julieta em cima]

ROMEU:
Calma!, que luz é aquela na janela?
É o leste e traz Julieta como um sol.
Sobe, formoso sol, e mata a lua,
Que sofre da anemia do ciúme,
Pois tu, sua devota, és mais formosa:
Não ‘stejas ao serviço da ciumenta:
Seu hábito vestal é doença verde
Que só os tolos usam, tira-o já.

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Algumas traduções de Rimbaud

29 de Setembro de 2012

Neste post, publicam-se sete traduções de poemas de Arthur Rimbaud feitas por Pedro Ludgero, e que servem de textos de apoio ao ensaio “O princípio de desvalorização da transcendência”, partilhado neste site a 12 de novembro do ano de 2011. (more…)

Tradução do poema “Goblin market”

8 de Março de 2011

Neste post, proponho a minha tradução do longo poema “Goblin market”, de Christina Rossetti, que é uma peça essencial para a leitura do ensaio “Uma lista de compras pode ser poesia?”, publicado neste site a o1 de Maio de 2010  . (more…)

Uma lista de compras pode ser poesia?

1 de Maio de 2010

Vamos para Moscovo em Junho, mas até lá ainda faltam Fevereiro, Março, Abril, Maio…”

(Irina em “Três irmãs” de Anton P. Tchekhov)

Qualquer fala de uma peça de Tchékov obriga a que a personagem que a exprime se fale sempre por inteiro. Daí a especial densidade que encenadores, actores, e público reconhecem nos diálogos aparentemente simples do escritor russo. Neste exemplo acima transcrito, Irina, a mais nova das três irmãs (que tudo o que deseja é sair da pequena cidade de província na qual não tem expectativas de uma vida satisfatória, para assim poder regressar a Moscovo, onde passou uma infância feliz, e que por isso mesmo confunde com um lugar de esperança), diz algo de terrível, apesar de não ter consciência disso. Pois as três irmãs nunca chegarão a ir para Moscovo. E assim, Fevereiro, Março, Abril e Maio, sofrerão um processo de adensamento e passarão a representar muito mais tempo do que aquele que na verdade representam. Serão o símbolo do interminável tempo da infelicidade, a multiplicação dos dias correntes da vida por todo o tédio do mundo. Mas convém sublinhar que Tchékov não escreveu: Vamos para Moscovo em Junho, mas até lá ainda falta tanto tempo… Não. O dramaturgo deu-se ao trabalho de enumerar os meses que faltariam até à esperada libertação. Porquê? Será Irina um pouco masoquista, e assim especifique o nome de cada mês para sentir a dor da espera de forma mais detalhada? Ou, pelo contrário, dirá cada um daqueles nomes como se já saboreasse de antemão o ponto de chegada? Como se cada palavra fosse uma guloseima que permitisse antecipar, por um processo especificamente literário, o festim final?

Isto coloca-nos perante o problema da enumeração enquanto recurso criativo.

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