Em nome da imaginação

8 de Agosto de 2015 por Pedro Ludgero

Antes de conhecer a carne e o osso da pessoa e os filmes que a carne e o osso iam fazendo, conheci o Saguenail como homem de palavra, mais precisamente como crítico e teorizador de cinema na revista portuense “A grande ilusão”. O título renoiriano previu a estima e a colaboração que se prolongariam por mais de duas décadas, mas julgo ser importante introduzir este breve ensaio assumindo que, das leituras dos textos escritos por Saguenail nessa publicação, resultou desde logo um pequeno revolvimento na maquinaria do meu intelecto. A verdade é que passei a considerar que, muito para além de qualquer discurso sobre qualidade (conceito em todo o caso muito dúbio), a amizade a um filme se deve pautar pela relação que ele consiga estabelecer com o pensamento específico do espetador, ou seja, a adesão a obras como “A palavra” de Dreyer, “O anjo exterminador” de Buñuel ou “Viver a sua vida” de Godard deverá ser indício não tanto da distinção social do espetador cultivado, mas sim dos desassossegos, sonhos e reivindicações com que ele se relaciona com o mundo. Tenho-me mantido fiel a esse modo de vida

O Saguenail convidou-me para fazer a apresentação dos últimos três livros que escreveu, sobre os quais pesa a circunstância de terem sido concretizados após a decisão de silêncio criativo que o seu autor havia tomado (e que durante algum tempo cumpriu). É com sentido de humor que o primeiro deles se intitula “incontinence verbale”: parece que a morte, mesmo simbólica, mantém na sua mão o queijo que daria plenos poderes àquele que maneja a faca. Não é isso que todos vimos em “O sabor da cereja?”

Como a apresentação dos livros teve um caráter oral, foi-me pedido que alinhavasse por escrito as ideias partilhadas e é disso que se trata neste artigo.

As três propostas (a segunda responde pelo nome de “les années-lumière” e a terceira foi batizada como “L’âme hurlante”) contêm um conjunto variado de impulsos e resultados. Textos ensaísticos, apontamentos, poemas, contos, colheitas de citações… Ora, a primeira palavra que se me impõe quando viajo pelo arquipélago que assim se soltou do incontinente, e que é a verdadeira lei fundamental que faz do autor e sua obra uma unidade, é a palavra “crítica”.

Há, na escrita de Saguenail, um duplo ponto de partida que eu classificaria como político. Por um lado, o autor reivindica que este não é o melhor dos mundos possíveis, pois o que não é realmente possível é a resignação perante as muitas dinâmicas de massacre que a humanidade tem vindo a banalizar e sobretudo afinar ao longo da sua história. Por outro lado, essa energia utópica postula um realismo muito mais profundo do que qualquer outro, na medida em que acusa o estado de múltipla ilusão a que todo o sujeito humano está vinculado na sua existência quotidiana (a ideia do melhor dos mundos não passará de uma fantasia). Ora, para que o indivíduo se possa transformar e possa em consequência contribuir para a transformação do mundo, o processo filosófico a que pode e deve recorrer é a crítica sistemática de todos os conceitos instituídos na cultura.

Saguenail labora para desfazer ideias feitas, para abalar o senso comum, para, no fundo, passar o testemunho crítico a um leitor que deverá fazer a corrida de livre pensamento chegar um pouco mais longe do cliché e um pouco mais perto da sua própria verdade. Mas se o autor critica a estagnação das mundividências, fá-lo para que o mundo se torne de novo explorável e, a partir desse nomadismo de pensamento, se possa ir configurando em lugar partilhável por todos.

Embora a estratégia atravesse toda a produção dos livros em debate (imiscuindo-se na criatividade poética e narrativa), eu diria que é nos textos assumidamente teóricos que o autor melhor consegue trazer poesia ao seu leitor, já que a crítica se serve indissociável de um conjunto de propostas que se apresentam tão pragmáticas quanto singelas (pois só sendo singelas se podem concretizar). Fiquei especialmente tocado com as propostas de reforma do ensino (já que o mundo não muda pelo voto ou pela revolução, nas escolas dever-se-ia ensinar o jovem a ser animal, humano e divino, ou seja, a saber reconhecer aquilo que de mais dadivoso existe em cada ângulo da nossa triangular condição), propostas indissociáveis de um sorriso, com tudo o que este consegue ostentar de radical seriedade e radical brincadeira. Fiquei impressionado pela desafio que o autor faz ao seu próprio ideário de eleição, o surrealismo, quando as cicatrizes de uma vida vivida o levam a duvidar se a generosidade não será valor mais revolucionário do que o amor. E pelo desafio lançado ao universo dos artistas, esses agentes do luxo entregues a manigâncias de corte, para que a tarefa de embelezamento do quotidiano se torne anónima e universal. E sou completamente solidário com a ideia, robusta, franca e graciosa, de que a vida (esse tesouro único) deve ser sobretudo consagrada ao melhoramento das condições de vida – para a geração do vivente hodierno e para as gerações que lhe hão de seguir.

Saguenail não esboça respostas, claro está, que se arroguem do prestígio da verdade. O humor de um projeto como o Tratado da Alma que vem desenvolvendo há mais de uma década ou a classificação de uma das partes centrais de “incontinence verbale” como filosofia de trazer por casa sugerem que a polémica com que ele ataca as evidências lhe confere apenas a sagacidade necessária para saber escolher a dedo as ilusões (outras?, novas?) com as quais pode(mos) prosseguir caminho de forma mais benigna. Pois só na morte deixaremos talvez de precisar de ilusões.

Aspeto determinante deste projeto crítico é a reivindicação de que cada indivíduo é um desconhecido de si mesmo, na medida em que assume erroneamente uma imagem pronta a vestir do eu que é, ela também, ilusória. Desde logo porque, como mostra a prosa de “Contredits”, a passagem do tempo altera a relação que mantemos com as nossas próprias obsessões. Somos contraditórios, somos mutáveis, e a maior parte das vezes só assistimos à nossa verdade mais profunda em momentos de perda de todo o controlo racional.

Didata experimentado, Saguenail elabora uma explicação claríssima da dinâmica que se pode estabelecer entre duas frases míticas da cultura ocidental (“Conhece-te a ti mesmo” de Sócrates e “Eu é um outro” de Rimbaud), postulando que a única maneira que cada indivíduo tem de se conhecer é através dos outros, na relação com os outros. Ao mesmo tempo, manifesta a convicção de que a escrita poética pode permitir que o eu de certo modo se construa à medida que vai sendo escrito, e talvez lhe possa revelar aquilo que lhe escapa, a sua verdade incorreta. Se as palavras padecem de uma polissemia ontológica, isso não elide o facto de só elas serem realmente gratuitas e comuns a toda a humanidade. Saguenail pratica uma poesia em busca do erotismo próprio da linguagem, plena de ambiguidades semânticas, de anagramas, de expressões idiomáticas, de investigações etimológicas e gramaticais, tudo revolvido numa genuína estratégia de desafio à racionalidade que, na minha muito modesta opinião, encontra o seu ponto mais alto em dois dos textos mais despojados: os poemas “Conjugaison” e “La lutte pour la dépendance”.

O título do livro “les années-lumière” tem de ser lido à luz de uma ironia fonética: em causa estão os anos Lumière, os anos da história do cinema, esse século XX que gorou a profecia da criação de homens-robô (não é portanto um século Pigmalião) mas quase reduziu os homens às suas próprias imagens. É verdade que o cinema é em si mesmo algo perigoso, na medida em que os seus mecanismos são unha e carne com os mecanismos de alienação individual e coletiva que estão na base do projeto crítico do autor. Mas Saguenail nunca fez filmes que não tomassem o real como combustível de uma imaginação em combate contra o caráter suicidário da sociedade. As encantatórias notas de “les années-lumière” (prossecução do seu projeto foldulógico, cuja ambição e amplitude terão de ser abordadas num outro artigo) tanto iluminam a realidade com o sol negro da lucidez como rejeitam todo o pudor iconoclasta, incentivando à criação de imagens que tornem a vida mais alegre, mais vívida. A imagem pode conter em si uma energia libertária, errante, que tanto define o ato filosófico de conhecer quanto promete um modo de beleza imperfeita, embriagada e infantil que é a maior bomba que se pode largar sobre o calculismo mórbido que continua a legitimar o assassínio massificado em nome do realismo.

O Saguenail é meu amigo, mas é também um intelectual que me interessa. De Heinrich von Kleist a Etty Hillesum, de Espinosa a Rimbaud, de Emily Dickinson a Anton Tchékhov, sigo a palavra e a criação de todos aqueles que, vindos dos mais díspares pontos de partida, chegaram, de uma forma tão violenta quanto doce, à infinita e irredutível perplexidade do Outro.

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