Foi tão gentil em ter permitido que eu me viesse!

10 de Outobro de 2015 por Pedro Ludgero

Os contos de fadas são quase sempre protagonizados por uma rapariga ou um rapaz de origens humildes que, em virtude de um processo de enamoramento e consequente desenlace matrimonial, ascendem à posição de princesa ou de príncipe. O sucesso social que coroa essas narrativas é, portanto, o indício figurado inequívoco de um crescimento psíquico.

No seu celebérrimo “Pygmalion”, texto dramático que talvez não precisasse de ter sido passado à forma de comédia musical, George Bernard Shaw cria uma personagem feminina mais próxima da Cinderela do que da estátua do mito grego no qual se inspira; atribui-lhe, como alvo da sua ação, um baile na presença de figuras monárquicas; e faz depender a relação da rapariga com aquele que por momentos parece ser o seu verdadeiro príncipe das relações que ambos mantêm com as suas figuras parentais.

Muito mais importante do que isso, Shaw parece ter entrevisto aquela desvairada hipótese que uma vez formulámos de uma leitura coperniciana do pensamento metafórico: poderá a emancipação social ser configurada a partir dos termos da emancipação psíquica do indivíduo? A resposta, afirmativa, reside no mito contemporâneo da educação universal. O pressuposto de que se pode agitar o status quo classista de uma comunidade por um método que, pelo menos na aparência, prescinde dos seus determinismos infraestruturais, tem todas as ambiguidades e fragilidades que permitem que ele seja ingenuamente incensado ou cinicamente reduzido a um conto de fadas.

Que não haja dúvidas sobre a ideologia comprometida do dramaturgo. No entanto, o facto de ele trabalhar o seu realismo sob a assombração de uma narratividade de índole lendária ter-lhe-á permitido chegar àquele tipo de sinceridade polémica a que só se chega por via da semiconsciência (no “My fair lady” de Cukor, a didática e a assombração trocam de lugar). Basta pensar na eloquência desse traço de personalidade do professor Higgins que o leva a tratar por igual, ou seja, mal, todas as classes: poderá haver maneira mais subtil de acusar a facilidade com que o socialismo se torna perversão?

Toda a gente sabe que este Higgins é um mestre de fonética que se compromete a fazer passar uma miserável vendedora de flores (Eliza) por duquesa nos meandros da alta sociedade. A comédia romântica que entre eles se estabelece, com o seu rol de peripécias suficientemente extravagantes para se tentar levar o celibatário empedernido até ao desejo de altar, é apenas o corolário do levantamento dos problemas que se colocam ao progresso social.

Assim como Higgins é monstruoso na sua especialização fonética, na sua fixação fetichista numa área circunscrita do conhecimento, também o conto de fadas não é inequívoco na dotação de um príncipe a Eliza porque a revolução não pode libertar apenas uma dimensão do ser humano. Para que Higgins e Eliza se tivessem tornado um par, não bastaria que a rapariga tivesse ficado educacionalmente apta para o convívio com os gentlemen. Seria preciso revolucionar também o pensamento sobre a condição da mulher (quem, naquela época, ia levar os chinelos ao macho, era verdadeiramente uma esposa ou apenas uma criada?), e revolucionar ainda a mediocridade psicanalítica, como a que faz com que Higgins não perceba o excesso patológico da presença materna no seu inconsciente e que Eliza insista em procurar a figura dominante que não pôde encontrar no seu demissionário pai.

Seria preciso reequacionar os dados da relação homem-mulher: poderão Higgins e Eliza manter entre si uma relação que nada tenha de sexual nem sentimental? By george, why not a couple of friends? Seria preciso desafiar as noções preconcebidas sobre o valor da autoridade e tomar consciência dos efeitos intimidantes que esta continua a produzir uma vez cessada a situação que a justifica. Seria preciso perceber que, à semelhança do que se passa no contexto escolar, é o convívio que possibilita as verdadeiras revoluções – Eliza reivindica que se tornou senhora apenas porque Pickering, o amigo abastado de Higgins, sempre a tratou como tal.

Seria preciso abandonar toda a ingenuidade económica (pois não é Pickering quem concede os fundos financeiros para que as aulas de Eliza sejam possíveis?). Seria preciso sobretudo um extremo cuidado na execução do experimentalismo social. Tanto Eliza como o seu pai sofrem ao ascenderem na escala classista britânica e não sabem como orientar o futuro a partir desses novos pressupostos. No entanto, com a total reformulação das expectativas sobre a vida que a ascensão lhes concedeu (a abundância de chocolates, os banhos aquecidos, a educação dos cavalheiros…), já não conseguem voltar atrás. Estão perdidos e estão presos.

A féerie aplicada ao problema linguístico é ambivalente. É verdade que, no decurso da obra, a linguagem desliza da função policiadora que Higgins começa por patentear para uma poética da pura possibilidade. Mas o autor parece apostado em esclarecer que, se a linguagem revela o possível, ela não forja o paraíso. Os amanhãs cantam ao desafio – e é tudo! A escola polemiza a sociedade, mas não a resolve nem é por ela resolvida. Nas suas discussões, Higgins e Eliza debatem tudo o que há para debater na revolucionária situação em que se encontram (mormente as questões de género e de classe), mas não chegam a pronunciar aquilo que, a bem de si mesmos e do espetador, talvez devessem: o proverbial “Amo-te”.

Instado pelo seu público a revelar o que aconteceu aos personagens após o too ambiguous ending da sua comédia, Shaw escreveu uma sequela de tal modo austera (a Eliza tudo corre, senão muito mal, pelo menos demasiado prosaicamente) que se revela a si mesmo como menos realista do que paladino do realismo. Para lá do conto de fadas, eis duas almas gémeas, sim, mas geminadas no excessivo orgulho das suas personalidades, geminadas precisamente naquilo que torna o seu convívio quase impossível. Higgins, especialmente, é um personagem notável: nunca percebemos se tem a inteligência emocional de um alfabeto ou se a sua recusa de sentimentalismo é o sinal de uma aristocracia com a qual nem os seus supostos pares seriam capazes de competir.

As suas discussões com Eliza mostram o Casal como nada tendo de garantido no mundo moderno a não ser, precisamente, a faculdade de no seu seio poderem discutir a modernidade. Com toda a certeza, muitos casais não aguentarão. Outros, porém, aprenderão a construir um certo edifício de perenidade, sem que para tal tenham tido de abdicar da inteligência, da liberdade e do amor-próprio. Julgamos que é melhor assim: é mais difícil encontrar a metáfora certa do que pegar numa peça de mikado.

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