Tradução da Cena da Varanda de “Romeu e Julieta”

30 de Dezembro de 2013

[Surge Julieta em cima]

ROMEU:
Calma!, que luz é aquela na janela?
É o leste e traz Julieta como um sol.
Sobe, formoso sol, e mata a lua,
Que sofre da anemia do ciúme,
Pois tu, sua devota, és mais formosa:
Não ‘stejas ao serviço da ciumenta:
Seu hábito vestal é doença verde
Que só os tolos usam, tira-o já.

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O imenso erro de Jesus Cristo

24 de Setembro de 2013

1.
O meu nome é Pedro Ludgero. Tenho 41 anos de idade no ano 2013 depois de Cristo. Sou de raça branca e pertenço ao sexo masculino. Sou português e vivo numa das maiores cidades de Portugal (no Ocidente, portanto). Pertenço à classe média. A minha educação teve uma componente católica não muito intensa. Não adiro à moral sexual tradicional. Tenho estudos universitários. Profissionalmente, estou ligado ao ramo da educação. Ainda que não reconhecido criticamente, sou escritor e cineasta. Leio muito. Do ponto de vista político, sinto-me próximo das ideologias de esquerda, mas voto em branco há mais de dez anos. Do ponto de vista religioso, reconheço-me sob a designação genérica do agnosticismo.

2.
O presente ensaio é o resultado de uma leitura atenta dos quatro Evangelhos canónicos, os que estão compilados no Novo Testamento da Bíblia, sem recurso a qualquer comentário sobre esses textos ou a qualquer leitura sobre a dimensão histórica dos eventos por eles narrados. A edição utilizada foi a da Difusora Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos, na revisão do ano de 2003.

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Ler (ensaio para a Joaninha)

1 de Setembro de 2013

POEMA DO COMEÇO (de António Maria Lisboa)

Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objeto estranho na algibeira
– trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

Querida Joaninha,

Na história de todas as famílias há sempre a figura do tio milionário que deixa uma farta herança aos seus descendentes, às vezes mesmo a tempo de os safar de uma aflição, outras vezes à maneira de um doce que não se pediu nem previu mas cujo sabor se revela maior precisamente por ser gratuito. Não tendo eu fortuna para partilhar com quem a mereça, esboço neste texto uma outra forma de deixar riqueza e de, deixando-a publicamente, te fazer única testamentária afetiva.

Na altura em que escrevo este ensaio, muito antes de ele poder ser uma eventual leitura tua, tens três anos e meio de idade e achas que o gosto do tio Pedro por livros é, no mínimo, uma característica bizarra. Como pode o livro competir com a gata Clara, a piscina do Algarve ou as corridas com os colegas do infantário? Quanto mais cresceres, mais terás a convicção da falta de sensualidade física que acompanha o ato de ler. Não há suficientes imagens da Marilyn ou do James Dean apanhados em flagrante leitura e, pelo contrário, são demasiadas as confirmações que a realidade fornece do cliché de um rato de biblioteca obeso, pouco sofisticado na atitude e no vestir, e algo privado de competências de sociabilidade. Será preciso ler?

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Imagens que de si mesmas extravasam

27 de Junho de 2013

1.
Todo o objeto artístico simplifica a relação do Homem com o problema da Eternidade.

2.
Um quadro pintado assume-se como uma identidade cuja duração material é lançada no abismo do tempo com a mesma falta de cálculo com que, na metáfora cliché, se lançam garrafas com mensagens ao oceano de facto. O quadro pode ser destruído, pode deteriorar-se até se tornar irreconhecível, pode ficar esquecido numa cave até ao Dia do Julgamento Final, mas essa possibilidade de morte é uma contingência que não se sobrepõe ao espectro de eternidade que assombra a sua duração.

3.
As performances e os happenings são registados em vídeo e em fotografia. Em todo o caso, o artista regista a singularidade do acontecimento no seu Catalogue Raisonné e/ou deixa instruções para a sua reativação num momento futuro. O momento tem um lado suspensivo e autocelebrador que o coloca sob a égide de uma lógica temporal que desafia a sua própria ambição de transitoriedade.

4.
Não estamos a abordar aqui o problema da vaidade do criador. Defendemos apenas que, seja por um processo moroso cheio de preparações, recuos e emendas (como a pintura), seja através de uma intuição fulgurante (o acaso certo que decide da qualidade de toda a fotografia, seja ela encenadíssima ou polaroid), o objeto artístico inventa para si mesmo uma possibilidade abstrata de eternização. Enquanto possibilidade abstrata, a eternidade não tem de se cumprir, tem apenas de ser uma virtualidade definidora de tal objeto.

5.
Dito de outro modo, o recetor da arte bem pode percorrer o Louvre num passo de corrida (tentando um recorde desportivo como os protagonistas do filme “BANDE A PART” de Jean-Luc Godard), que o facto de deixar de contemplar o objeto artístico não abole a duração e a existência deste mesmo. É claro que a arte só existe no momento da comunicação, mas esta faculdade de comunicar ultrapassa sempre qualquer concretização de destinatário. Os japoneses vêm fotografar “LA GIOCONDA” a Paris, no presente salvámos as imemoriais gravuras rupestres de Foz Coa do seu alagamento (da impossibilidade de com elas comunicarmos).

6.
Teoricamente, o cinema poderia ter-se tornado uma arte de planos únicos (cada filme composto por uma só imagem em movimento). O seu passado pictórico e fotográfico apontava certamente nessa direção.
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O “melhor” dos filmes

28 de Janeiro de 2013

Um pouco de pseudossociologia

As razões pelas quais se gosta ou não de um filme (ou de qualquer outro produto artístico) são objetivas. Quer isto apenas dizer que essas razões, como todas as que desse nome se podem orgulhar, se pretendem universais, ou seja, válidas para todas as situações idênticas e passíveis de serem apropriadas por todo e qualquer indivíduo que se interesse pelo seu assunto.

A ética é quase sempre o desejo de ética (o trapalhão não é, por definição, menos moral que o jeitoso). Por isso, as razões objetivas são desejadas como universais (em genealogia kantiana), mas não têm necessariamente de o ser. Se todos nos socorrêssemos desta reserva, talvez tivéssemos relações menos viciadas com os chamados Cânones.

Na verdade, o conjunto de obras que, no tempo presente, permanecem em repertório (de projeção, de performance, de leitura, de pensamento) não resultou de um processo de seleção subjetivo ou estritamente caprichoso (embora não ponhamos as mãos no fogo pela boa-fé de todos aqueles que tentam ser senhores da cultura). Há toda uma argumentação histórica debatida, defendida, consolidada, que, a despeito da parcela de emoção inexplicável que rege a relação espetador/obra de arte, pode ser recuperada por todo aquele que precisamente falha esse nível de evidência (supomos, aliás, que a maioria dos críticos profissionais não conhecem a origem histórica dos argumentos que utilizam no seu exercício).

O Cânone não precisa de ser liminar e absolutamente renegado (o que equivaleria a um ato de barbárie que, para ser consequente, teria de ser acompanhado pela automarginalização civilizacional do crítico) e muito menos tem de ser aceite na sua totalidade autoritária. Mas é precisamente em sede argumentativa que essas tomadas de posição (a favor ou contra a corrente) devem ser tomadas.

Ora, um pensamento não pode ser reduzido a uma valorização ordinal (nem sequer pode ser convertido à exemplaridade numérica). O que nos leva a perguntar qual a utilidade das célebres listas que pretendem elencar os “melhores filmes de todos os tempos”. Especialmente se a seleção for feita por um sistema de voto, em vez de ter por base uma discussão.

O que se tenta averiguar num exercício como aquele que foi promovido pela revista britânica “Sight and Sound” (na verdade, uma prática cliché da imprensa cultural), exercício que atingiu a pequena notoriedade de ter destronado o filme “Citizen Kane” (de Orson Welles) do seu usual lugar cimeiro do pódio cinéfilo a favor do “Vertigo” de Alfred Hitchcock, é, por um lado, o estado geral das paixões que alimentam a sétima arte e, por outro, a dinâmica de mito que as obras de arte sustentam na sua relação com a sociedade.

Por um processo consciente, a democracia reivindicada pelo gesto pode de facto explicitar o gosto de uma determinada época. Mas aquilo que um filme significa para os consumidores de estética num momento histórico concreto, isso só pode ser especulado, ou melhor dizendo, proposto por via de argumentação. Na verdade, é sem querer que os votantes da “Sight and Sound” nos informam do estado das coisas referentes ao cinema.

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O mais belo dos filmes

26 de Dezembro de 2012

O filme “El espíritu de la colmena” (“O espírito da colmeia”), realizado em 1973 por Victor Erice, narra o efeito que um visionamento do clássico de terror hollywoodiano “Frankenstein” tem no acelerar do crescimento de uma criança, na Espanha do período de grande repressão franquista que se seguiu ao fim da guerra civil desse país.

Na sua fábula, poética e algo críptica, Erice confere três características principais à arte a que ele próprio se dedicou: o cinema, como o sistema ferroviário, traz notícias do exterior a quem está isolado no meio do nada (ou seja, é um catalisador de conhecimento, ou, pelo menos, do seu desejo); o cinema é um acontecimento raro, quase único e por isso mesmo especial; o cinema, enquanto evento acolhido por uma entidade pública, tem um papel cívico inevitável.

Nada disto parece consentâneo com uma época em que estamos encharcados de informação (praticamente toda inútil ou inexata), encharcados de cinema também, sempre a dois passos de podermos estar em todo o lado, em toda a situação, em toda a monstruosidade. E mesmo que o filme de Erice tenha sido feito em tempo de “cinemas novos”, com toda a inteireza e liberdade que esses movimentos estéticos reivindicaram para a sétima arte, quer-nos parecer que, mesmo nessa data, ele terá feito figura de proposta utópica de criação.

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Algumas traduções de Rimbaud

29 de Setembro de 2012

Neste post, publicam-se sete traduções de poemas de Arthur Rimbaud feitas por Pedro Ludgero, e que servem de textos de apoio ao ensaio “O princípio de desvalorização da transcendência”, partilhado neste site a 12 de novembro do ano de 2011. Ler ensaio completo »

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Derivações do “Efeito Kuleshov”

16 de Setembro de 2012

No princípio da década de vinte do século passado, o realizador e teórico soviético Lev Kuleshov desenvolveu uma experiência no âmbito da montagem cinematográfica, cujo resultado-tese ficou conhecido precisamente pelo seu nome.

Consistiu a dita experiência na justaposição por montagem de planos do ator Ivan Mozzhukhin nos quais ele se mostrava bastante inexpressivo com planos de objetos com conteúdo emocional diverso (um prato de sopa, uma criança a brincar, um caixão com uma jovem morta…), planos esses cuja rodagem não tivera qualquer relação com aquela de onde haviam derivado as imagens do ator. O que se conta (pois, à falta de registo em película da experiência, há quem negue a sua verdade histórica) é que, quando perante esse produto fílmico, os espetadores leram, no rosto de Mozzhukhin, a reação afetiva adequada a cada um dos contracampos, parecendo que, perante o prato de sopa, o ator exprimia fome, perante o caixão exprimia desgosto, etc.

Como nenhuma dessa reações emotivas existia de facto no jogo do intérprete, mas elas se afiguraram evidentes pelo simples recurso à montagem entre os planos de um sujeito que olha e os planos de um objeto que é olhado, a experiência costuma ser celebrada como uma prova dos poderes criadores da montagem. No dizer de Vincent Pinel, a simples colagem de duas imagens permite que surja uma ligação ou um sentido que estão ausentes de cada imagem por si só. Esta convicção de que o resultado providenciado por um gesto de montagem faz com que o todo resultante dessa soma seja qualitativamente distinto das suas partes, estava em concordância com a ideia de “montagem de atrações” teorizada e praticada por Sergei Eisenstein. Mas muitas outras histórias do cinema funcionariam como consequência paradigmática deste princípio, desde a aparente inexpressividade dos modelos de Robert Bresson ao rigor de edição caro a Alfred Hitchcock (podemos mesmo considerar que uma radical remontagem de “Rear window”, mantendo a integridade da performance de James Stewart mas alterando em absoluto o teor do que nesse filme ele observa, seria um exercício pertinente no que a esta questão concerne).

Quer-nos parecer, contudo, que são bastantes as ilações outras que podem ser extraídas da experiência. Especialmente porque dela não há registos que nos impeçam a vontade de especulação.

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“Checkpoint Sunset”

8 de Setembro de 2012

Neste post, estão transcritas algumas das notas que acompanharam o argumento do meu projeto de filme “Checkpoint Sunset”, que está neste momento em fase de pós-produção. Ler ensaio completo »

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Público-alvor

21 de Agosto de 2012

Vivemos num mundo ajaezado à capitalista, consensualmente, porque nos dizem ou que não se pode viver melhor do que isto ou que outra coisa que viesse poderia ainda ser pior. O medo das engenharias sociais a tal levou. Enfim, o conhecimento da história de outras civilizações que não aquela que brotou do rapto da Europa permite-nos a certeza de que outros modos de organização do humano são possíveis (e eficazes). Pano para mangas, certamente, e assunto de delicadeza hiperbólica, não é disso que trataremos aqui. Fiquemo-nos pelo statement de contexto. Ler ensaio completo »

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