O princípio de desvalorização da transcendência

12 de Novembro de 2011

1.

Em “Alchimie du verbe”, um dos capítulos de “Une saison en enfer”, Arthur Rimbaud parece colocar um anátema sobre a sua obra poética, ou, pelo menos, sobre parte de tal produção. E no texto que encerra essa autobiografia sobretudo espiritual, o pol(iss)émico “Adieu”, o desprezo parece mesmo inaugurar o silêncio criativo (demasiado) lendário do jovem autor: um heróico adeus à poesia.

Tudo isso está hoje mais do que desmitificado, especialmente porque o estudo da vida e da obra rimbaldianas já provou que a maior parte dos poemas em prosa das “Illuminations” foram escritos ao mesmo tempo ou até depois desse putativo testamento literário. Como explicar o aparente recuo de um autor tão dado aos gestos teatralmente definitivos?

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Tradução do poema “Goblin market”

8 de Março de 2011

Neste post, proponho a minha tradução do longo poema “Goblin market”, de Christina Rossetti, que é uma peça essencial para a leitura do ensaio “Uma lista de compras pode ser poesia?”, publicado neste site a o1 de Maio de 2010  . Ler ensaio completo »

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Uma questão de fronteira

26 de Dezembro de 2010

Se a filosofia muitas vezes nos parece artificial e profundamente distanciada da vivência do quotidiano (que é ao mesmo tempo o nosso mais imediato civismo e a nossa ditadura privada), isso talvez se deva ao facto de os seus agentes estarem sempre demasiado preocupados com a questão da coerência. O filósofo calcula a sua própria coerência, trabalha nela como um construtor servil se esforça por tornar uma casa consequente e segura.

No entanto, talvez se possa ser um pensador indiscutivelmente honesto e não ter demasiado medo da contradição imediata. Pois só a própria honestidade do método pode afinal garantir uma coerência mais elástica, abrangente e profunda a todos os pontos que vão lentamente edificando uma linha de pensamento. O nosso corpo não altera a sua integridade global por causa da actividade contínua da respiração. De igual modo, o constante movimento de inspiração de estímulos do real e expiração de ideias e atitudes a partir desses estímulos (a respiração do pensamento, essencial à nossa sobrevivência a curto, médio e longo prazo) não perverte facilmente a consistência do espírito, desse Pensamento que, sistemática ou espontaneamente, todo o homem acaba por unificar.

Proust intuiu que o género romance, devido à sua inevitável extensão, estava particularmente bem vocacionado para exprimir toda a dinâmica da relação entre a passagem do tempo (o pequeno tempo-altar ou o imenso tempo-catedral) e a inalienável singularidade de cada personagem. Fernando Pessoa não lhe ficou atrás, e construiu os seus famigerados heterónimos como personagens cujo pensamento foi evoluindo (por curtos saltos e subtis contradições) a partir de um sistema estável inicial. Como já foi muitas vezes dito, tratou-se de um gesto de dramaturgo. Por muito que a escrita pessoana deva parte da sua grandeza à filosofia, a verdade é que ela é acima de tudo um projecto de Poesia. Alberto Caeiro não é um pensador acabado, é uma personagem a cujo pensamento mutável nós temos um acesso essencialmente literário.

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Falar do que se gosta

22 de Setembro de 2010

Para sempre é sempre por um triz

Chico Buarque de Hollanda

Em “In vino veritas”, Soren Kierkegaard sugere que o amor é, de certo modo, um assunto não pensável. No fundo, o que o dinamarquês estava a pedir era a categoria do inconsciente psicológico, do inexplicável sobre o qual o amor sustenta as suas mais determinadas justificações, categoria essa que só haveria de ser intuída alguns anos mais tarde. De qualquer maneira, “In vino veritas” é uma rescrita (ou uma recordação, para falarmos de um modo mais kierkegaardiano) de “O banquete” de Platão, texto fundamental e mítico, no qual o pensador ateniense debate, precisamente, a tensão entre a vontade que a filosofia tem de sistematizar a diversidade de fenómenos num “mesmo” universal e um sentimento como o amor, cuja definição parte da evidência do “diferente”: amar é aceitar ser invadido pela alteridade. Claro que, sendo a Grécia antiga o momento de descoberta apaixonada das virtudes da filosofia, Platão não poderia ter chegado ao mesmo grau de dúvida de Kierkegaard, mas como era um dramaturgo excepcional (numa sociedade de dramaturgos excepcionais), o seu diálogo teórico tem uma reserva de ambiguidade e ironia assinaláveis que o tornam um prazer de leitura neste mesmo presente em que escrevemos.

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Je sublime

14 de Agosto de 2010

1.

Não há qualquer comunicação entre o domínio da vida e o domínio da morte.

Isto não é uma afirmação de (falta de) fé. Simplesmente, a ciência já deu provas suficientes da validade do conhecimento que produz para podermos supor que, caso os espiritismos tivessem o menor resquício de verdade, essa verdade não estivesse já devidamente estudada, sistematizada, talvez até dominada e utilizada de modo pragmático. Ainda que suspeitemos que a nossa vida decorre numa espécie de pré-história do conhecimento do Além (o agnosticismo é mais seguro que o ateísmo), o presente obriga-nos a reconhecer a competência das ciências da vida e a acusar a falta de seriedade dos negócios do oculto.

No entanto, não é porque alguém sabe que uma miragem é uma ilusão de óptica que deixa de a ver (de a sentir). E por isso, a consciência de que não existe comunicação entre o domínio da vida e o domínio da morte não impede que essa falta funcione como uma espécie de trauma emocional profundo para a espécie humana. Independentemente do maior ou menor humor de cada indivíduo (e ele há místicos, sobreviventes, oportunistas, superficiais, convertidos, etc.), ninguém escapa a esse incómodo metafísico. O que faz com que a comunicação seja o tema mais obsessivo da cultura criada pelo Homem: a ligação do tema do Amor ao tema da Morte não deriva tanto de uma espécie de romantismo trans-histórico, mas precisamente dessa utopia/distopia de Comunicação.

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Algumas maneiras de olhar para a metáfora

19 de Junho de 2010

1.

Entre comparação e metáfora

O que é uma metáfora? É uma operação de linguagem que, a partir dos dados semânticos fornecidos por um contexto discursivo, propõe uma perturbação do sentido habitual associado a uma palavra. Esta definição não é plena, nem o pretende ser. A polissemia, ou melhor dizendo, a vagueza subjacente à linguagem, permitiria a sua aplicação às figuras da metonímia ou da sinédoque. A palavra-chave da nossa definição será, contudo, a palavra “perturbação”, pois há uma dimensão de absurdo conceptual no enunciado metafórico que tanto a metonímia como a sinédoque tendem a mitigar.

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Humaníssima trindade

19 de Junho de 2010

Os filmes de Abbas Kiarostami têm uma tão grande coerência estilística que podem ser considerados repetitivos. Contudo, ao contrário de Yasujiro Ozu, o autor iraniano não está sempre a fazer o mesmo filme. Na sua trilogia de Koker, a primeira parte aborda a infância humana, a última discorre sobre a adolescência, a obra central faz um balanço justíssimo entre o peso descendente da morte e o peso ascendente da vida. Num momento de pausa na rodagem encenada em “ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS”, o realizador interroga um conjunto de crianças sobre o significado da palavra cooperação. Este pode ser o factor unificador do conjunto de filmes. Bem longe de Teerão, entre as aldeias de Koker e de Poshteh, deambula um conjunto de personagens empenhadas em actos que ultrapassam o seu individualismo: o miúdo que quer saber “ONDE É A CASA DO AMIGO?” para lhe entregar um caderno que lhe permita fazer os trabalhos de casa, um homem que quer saber o paradeiro e o estado de saúde dos actores do seu filme anterior, um jovem analfabeto e pobre que tenta arranjar esposa, uma equipa de cinema que tenta rodar um filme…

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Uma lista de compras pode ser poesia?

1 de Maio de 2010

Vamos para Moscovo em Junho, mas até lá ainda faltam Fevereiro, Março, Abril, Maio…”

(Irina em “Três irmãs” de Anton P. Tchekhov)

Qualquer fala de uma peça de Tchékov obriga a que a personagem que a exprime se fale sempre por inteiro. Daí a especial densidade que encenadores, actores, e público reconhecem nos diálogos aparentemente simples do escritor russo. Neste exemplo acima transcrito, Irina, a mais nova das três irmãs (que tudo o que deseja é sair da pequena cidade de província na qual não tem expectativas de uma vida satisfatória, para assim poder regressar a Moscovo, onde passou uma infância feliz, e que por isso mesmo confunde com um lugar de esperança), diz algo de terrível, apesar de não ter consciência disso. Pois as três irmãs nunca chegarão a ir para Moscovo. E assim, Fevereiro, Março, Abril e Maio, sofrerão um processo de adensamento e passarão a representar muito mais tempo do que aquele que na verdade representam. Serão o símbolo do interminável tempo da infelicidade, a multiplicação dos dias correntes da vida por todo o tédio do mundo. Mas convém sublinhar que Tchékov não escreveu: Vamos para Moscovo em Junho, mas até lá ainda falta tanto tempo… Não. O dramaturgo deu-se ao trabalho de enumerar os meses que faltariam até à esperada libertação. Porquê? Será Irina um pouco masoquista, e assim especifique o nome de cada mês para sentir a dor da espera de forma mais detalhada? Ou, pelo contrário, dirá cada um daqueles nomes como se já saboreasse de antemão o ponto de chegada? Como se cada palavra fosse uma guloseima que permitisse antecipar, por um processo especificamente literário, o festim final?

Isto coloca-nos perante o problema da enumeração enquanto recurso criativo.

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The man who shot Monument Valley

29 de Abril de 2010

John Ford sempre se considerou um mero fazedor de westerns, querendo nesta sincera modéstia exprimir a sua especialização em construir cenas de género (o parto, o funeral, o julgamento em tribunal, a campanha política de cariz regionalista, o namoro à moda antiga, o baile, a pancadaria entre homens, a perseguição ou a batalha no deserto norte-americano), em dar vida a um conjunto relativamente restrito de personagens (o homem rude, o idealista frágil, o político pouco ortodoxo, o xerife lendário, o sacerdote excêntrico, a mulher irreverente, a prostituta, o médico bêbado), e em dirigir um grupo estável de actores cúmplices (John Wayne, Henry Fonda, James Stewart, Maureen O’Hara, Jeffrey Hunter, Jane Darwell, Victor Maclaglen, Ward Bond, etc.). Esta mestria (lentamente adquirida) permitiu-lhe, contudo, elaborar filmes que extravasam os limites do género a que pertencem dada a força da encenação (“MY DARLING CLEMENTINE”), a complexidade do discurso (“THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE”) ou a ironia meta-cinematográfica (“THE QUIET MAN”).

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Três escalas

26 de Abril de 2010

Em geral, a viagem é entendida como uma deslocação essencialmente física sobre a qual se sedimentam valorações intelectuais que depois constituirão a geologia da memória. Para os mais aventureiros, a viagem pode mesmo ser magmática – quando o movimento na distância provoca uma erupção espiritual que altera as coordenadas psíquicas do próprio viajante.

Na escrita poética, contudo, a viagem é um processo erosivo. Bem o sabia Charles Baudelaire, autor sensual que, na equação vida-corrosão, sempre ocupou um lugar mais passivo do que activo.

O seu texto “O convite à viagem”, poema mítico e fundador da modernidade, parte de uma ideia muito simples e (talvez) indiferente à originalidade: o sujeito lírico convida a mulher amada a ir viver com ele para um país que a ela mesma se assemelha. Ou melhor, um país que é a amada e que, de algum modo, constitui um verdadeiro país de cocanha.

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