O vício do círculo

26 de Abril de 2010

No seu quarteto de filmes de fim de vida e obra, Max Ophüls escolheu como alter-ego a figura justa do narrador. Não um narrador distante, hermeticamente fechado no pensamento, mas alguém que se move por entre as personagens sobre as quais recai a narração. Em “LA RONDE”, a figura do compère (Anton Walbrook) conversa com os actores, condu-los ao espaço adequado à progressão da ficção, assume ele próprio personagens (criados, cocheiros, soldados) que, se disfarçam mal o seu objectivo de camuflagem, exibem a ficção social que o realizador escolheu para a sua auto-representação. Ophüls não constrói, para si mesmo, uma imagem privilegiada: em “LE PLAISIR”, o narrador (Jean Servais) acaba por encarnar num personagem desagradável que precipita o desfecho trágico; em “LOLA MONTÈS”, o apresentador de circo (Peter Ustinov), para além de ceder perante a sensualidade da protagonista, usa a vida desta com o mais abjecto oportunismo mercantil. Aliás, a sua condição omnisciente não deriva de um irreprimível talento demiúrgico ou visionário, mas apenas de um conhecimento experiente dos processos viciados da vida humana. Mesmo em “MADAME DE…”, onde a figura do contador está ausente, a trama narrativa é de tal modo perfeita e esmagadora, que obriga o espectador a tomar consciência da presença de um analista, se não sádico pelo menos clínico, na sombra do filme. Mas atente-se na escolha dos actores para os papéis atrás referidos, para se conceber com quanto estilo e savoir faire o realizador modela o seu pequeno teatro de desencanto.

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Se o homem escreve o homem

26 de Abril de 2010

Se o Homem é o grande e exclusivo tema de todas as criações artísticas do Homem, para tal não é preciso que o sujeito-enquanto-criador se confunda ingenuamente com o sujeito-enquanto-vivente (o dilema do romantismo), nem que o objecto aparente da criação se subordine a uma representação jornalística, directa e figurativa, da humanidade (o dilema do realismo).

João Cabral de Melo Neto, poeta consciente das idiossincrasias do seu métier, sabia que escrever a paisagem é sempre escrever o Homem. No poema “De um avião”, apresenta uma teoria descritiva do árduo e nada evidente processo que leva a que o homem que escreve (aquele que estende os seus dedos, e evolui por círculos) consiga dar a ver algo do homem sobre o qual pretende escrever (aquele que estende a sua teia existencial, e se revela por meio de uma espiral).

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De corpo inteiro

14 de Abril de 2010

O que é um romance? Tão-somente uma criação consciente de que, por mais livre que seja o impulso que a anima, não pode abdicar da referência aos elementos da realidade. A poesia vive da ilusão de que pode (um dia) ser musical, e por isso se apresenta como uma tendência para a sensualidade (da mais exultante à mais desesperada) perante a qual o problema da realidade se encontra frontalmente interrogado. Contudo, o narrador, mesmo quando opta pela fantasia, pela adivinhação histórica ou pela ficção científica, escreve sempre com base na tristeza de só conseguir criar a partir da realidade (claro que a poesia também só sabe criar a partir da realidade, mas assume isso mais como um desafio do que em termos de uma perda).

O romance vive então de uma dupla tensão: por um lado, exige do leitor a mesma credulidade que este tem perante a verosimilhança do real, mas por outro lado só o conquista através da artificialidade dos seus processos (mesmo o romance documental é um concentrado exemplar e tematicamente orientado, que nada tem a ver com o arbitrário funcionamento da vida). O romance está condenado à sua duplicidade postiça.

O D. Quixote de Cervantes é precisamente aquele indivíduo que, quando vê um cenário onde se desenrola uma história de títeres, julga estar a assistir a uma história verídica. O famoso Cavaleiro da Triste Figura quase não distingue a realidade da representação, e assim se torna a personagem ideal (a única personagem aceitável, talvez) do género romance.

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