Pequenos textos sobre a liberdade?

17 de Maio de 2014 por Pedro Ludgero

Um indivíduo pode nunca ter ido a Nova Iorque. Mas se com ele partilharem uma imagem dessa cidade (imagem não necessariamente visual), ao seu espírito acorrerão de imediato memórias de alguns passos de vidas que tal indivíduo não viveu: a receção feita pela Estátua da Liberdade ao emigrante atravancado de sonhos, a beleza da skyline de Manhattan vista de longe, o réveillon em Times Square difundido para todo o mundo, a vida sexual de Woody Allen igualmente difundida para todo o mundo, talvez a dama de Xangai morrendo em Chinatown.

Num poema oportunamente intitulado “Poema”, a escritora norte-americana Elizabeth Bishop confere à obra de arte o poder de reunir o autor e o seu destinatário em torno da possibilidade de ambos reconhecerem um lugar, o lugar que a obra ao mesmo tempo representa e (re)cria. Esse reconhecimento é possível na medida em que a arte lida sobretudo com as implicações míticas que se desprendem de cada lugar como uma série de harmónicos se desprende de um som. Frequentemente considerada uma observadora realista (o realismo tem tanto prestígio que passa por cima de todo o espírito crítico), a verdade é que, no texto de abertura daquele que será porventura o seu livro mais célebre, “Geography III”, após um conjunto de definições básicas da disciplina que dá título à recolha, a poeta pergunta com ambiguidade calculada: “Em que direção, a partir do centro do / mapa, está a Ilha?” (trad. Maria de Lourdes Guimarães) Ou seja, ao usar um artigo definido sem definir qual o espaço insular concreto a que eventualmente se refere, a autora de imediato se coloca no âmbito do mito, sem que isso implique a queda num simbolismo convencional. Muito pelo contrário, a mitologia geográfica de Bishop revela-se tão profundamente idiossincrática que consegue roçar o absurdo.

No seu estranho conto “In prison” (“Na prisão”, lido na tradução de Helder Moura Pereira), o primeiro texto que analisaremos neste ensaio, a escritora propõe ao leitor o raciocínio de um personagem fictício que deseja livremente a usurpação da sua liberdade. De facto, não conhecemos nenhum outro desejo do personagem a não ser o sonho ardente de ir um dia parar à prisão, se possível com pena perpétua. Trata-se de um indivíduo que, declarando que se pode “ter sucesso num determinado lugar, mas não em todos”, acha que ele próprio só poderá ter sucesso pessoal quando estiver fechado num cárcere, hipótese paradoxal que provocará uma imediata reação de desagrado por parte de praticamente toda a Humanidade que entrar em contacto com tal raciocínio.

A autora é suficientemente ambígua para não pôr de parte a hipótese de alguma patologia no pensamento do seu personagem, desde logo porque ele tenta separar as suas águas das águas de um louco (diz que a vista adequada à sua cela de prisioneiro tem de ser mais severa do que a suposta num hospício), e todos sabemos que só está louco quem tem a certeza de não o estar. Igualmente, o excessivo pormenor com que o sonhador vive o seu sonho (no limiar do delírio) e a indisponibilidade autista para qualquer tipo de alteração na rotina do cenário idealizado, nada disso augura a melhor saúde mental para o protagonista e único personagem de “In prison”.

Numa primeira linha de interpretação, a mais consensual e eventualmente útil, é óbvio que este conto onde pairam fantasmas kafkianos, mas também de Edgar Allan Poe e Melville, é uma espécie de sintoma literário da parcial ou mesmo total falência do chamado mundo livre, de um mundo em que as condições formais de liberdade não se revelam materiais nem têm outras repercussões igualmente urgentes para a realização humana. Ou seja, um mundo no qual alguém se pode sentir melhor dentro de uma prisão do que em liberdade.

Tal mundo é de tal modo vacilante no seu rigor político, que a aceitação da restrição da liberdade que lhe dá o nome e a fama pode ser assumida como o mais lógico, o mais racional dos passos que um cidadão pode dar (é essa a conclusão do escrito): a lógica e a loucura sempre andaram de mãos dadas. Digamos, contudo, que o conto “In prison” é sobretudo um sintoma do empobrecimento radical que o cenário da Utopia sofreu no imaginário do homem contemporâneo. Até onde pode o Homem sonhar pouco?

É claro que a sensibilidade de Bishop para o problema coletivo deriva em grande parte dos seus dilemas privados. Será difícil não perceber, neste desejo arremessado ao leitor como um dado incompreensível, o embaraço que a poeta sempre experimentou na aceitação da sua própria homossexualidade, do seu erotismo incompreensível (mesmo que isto não fosse matéria consciente durante a escrita do conto). Também se poderá descortinar uma certa falta de domínio da vida quotidiana e mundana na aspiração que o personagem de “In prison” tem de usar o cárcere para submeter o incontrolável da vida a uma certa ilusão de controlo (o exemplo quase cómico de constituir um estilo de guarda-roupa próprio num contexto em que toda a gente anda vestida da mesma maneira), pulsão que ganhará um eco mais trabalhado no famigerado poema “One art”.

A questão central, contudo, é a questão do lugar sonhado, da u-topia. A perplexidade que Bishop parece genialmente intuir é a seguinte: se a utopia é um lugar que não há (o século XX parece ter escrito isso sobre a pedra), uma coisa continua a haver certamente, que é o desejo íntimo (patológico?) de um lugar que não possa deixar de o ser, de um lugar irremediável, um lugar que seja o nosso destino (noutros tempos, falava-se do Céu). Assim sendo, que melhor manifestação do desespero civilizacional do homem contemporâneo haverá do que esta aspiração ao único lugar irremediável da nossa sociedade, ao único lugar que se pode revelar fatal para um vivo, ao único lugar necessário, que não pode deixar de o ser, que não pode ser outro, esse lugar que é a prisão? O erotismo que acompanha o sonho do personagem de “In prison” deriva precisamente do facto de que uma ida para a prisão decorre sempre por via dessa corruptela da força do destino que é o poder estatal. É uma perversão toda ela carregada da mais funda eloquência.

E que não se restringe à sinalização do absurdo e do desespero. Há toda uma ética defendida ao longo do texto. O personagem parece fazer finca-pé na ideia de que, se vivemos como numa prisão (como “Crusoé em Inglaterra”, um outro texto de Bishop), o melhor é passarmos a viver mesmo na prisão, no contexto literal, pois só esse contexto gerará as condições de vida adequadas a uma criação intelectual que possa dar resposta a todo esse estado das coisas. A máxima por que ele se rege (“A liberdade é o nosso conhecimento da necessidade”) faz apelo a uma luta contra a alienação e em busca da máxima lucidez: precisamos de saber em que pode consistir, de facto, a liberdade.

O personagem conta que, num sonho que teve no passado, só percebeu que estava no Inferno porque o horizonte do seu campo de visão estava com quarenta e cinco graus de inclinação. Esta ida por necessidade para o cárcere de certo modo equivale a projetar a room of one’s own, um espaço severo, difícil, o menos evidente possível, que permita encontrar a perspetiva mais justa sobre o mundo. Para quem, como Bishop, escreveu a magistral vilanela “One art” (em que se defende o cultivo da arte da perda, argumentando que ela não se confunde com o que os outros julgam ser um desastre), parece que de facto só se pode escrever nas paredes de uma prisão, como pretende o personagem do seu conto, ou seja, o escritor, na sua produção de imaginário (e é isso que Bishop faz, não observação realista), está imbuído de muito menos capricho que de responsabilidade. Só escreve, aliás, quem já não pode deixar de o fazer, quem está preso à escrita.

A dada altura, no conto em análise, o personagem diz, fantasiando sobre os aspetos concretos da sua futura vida como prisioneiro: “Já pensei em escrever um poema curto mas imortal, mas receio não estar à altura (…)”. Tomemos um poema de Elizabeth Bishop e façamos dele a hipótese desse poema curto mas imortal. Aqui fica o original e uma tradução da nossa lavra:

Sonnet

Caught – the bubble
in the spirit level,
a creature divided;
and the compass needle
wobbling and wavering,
undecided.
Freed – the broken
thermometer’s mercury
running away;
and the rainbow-bird
from the narrow bevel
of the empty mirror,
flying wherever
it feels like, gay!

Soneto

Presa – a bolha
no espírito do nível,
criatura dividida;
e a agulha da bússola
oscilando e hesitando,
indefinida.
Solto – o mercúrio
do termómetro quebrado
fugindo à pressa;
e o pássaro-íris
do estreito bisel
do espelho sem ninguém,
voando p’ra qualquer sentido
da palavra “gay”!

Publicado na revista “The New Yorker” a 29 de outubro de 1979, três semanas após a morte da sua autora, o Soneto de Bishop é normalmente tomado como uma sua dádiva póstuma, uma espécie de herança textual. Na verdade, ele havia sido escrito cerca de um ano antes, num momento em que a escritora não poderia obviamente prever a sua morte acidental (por aneurisma), e foi o atraso fortuito na publicação que lhe conferiu uma aura testamentária. Em todo o caso, há lendas que vêm por bem…

É um poema invulgarmente estreito no seu aspeto visual, um exemplo ativo de versificação vertical, que conjuga as catorze linhas típicas da forma soneto com um número de sílabas muito menor (entre três a cinco) em cada uma dessas linhas. É um lugar demasiado apertado para se abordar seja o que for, quase uma forma-cárcere (a que a escolha de uma estrutura convencional e historicamente carregada como o soneto traz uma precisa reverberação), é de facto apenas o bisel do espelho em que um autor se pretendesse retratar, uma esguelha na qual o assunto parece estar prestes a deixar de o ser.

O poeta Lloyd Schwartz, que terá privado com a autora, defende o conteúdo eminentemente autobiográfico do texto. Na verdade, as angústias que perseguiram Bishop, sem que ela delas tenha feito grande alarde ao longo da sua vida, estão todas aqui presentes como se fossem nada mais que pequenas manchas de cor (quase abstratas) no tal bisel de um espelho: uma certa propensão para o alcoolismo (no espírito do nível de bolha), a inconstância geográfica (na bússola descontrolada), a doença (no termómetro quebrado) e, claro, sobretudo a homossexualidade. Schwartz fala ainda do desgosto que Bishop teria quanto ao seu aspeto físico, o que a tornaria pouco assídua perante superfícies especulares. Mas nós preferimos desvalorizar estas tricas confessionais, a favor do verdadeiro impulso lírico que nos parece atravessar essa resistência da escritora ao espelho e que é a sua vontade profunda, e de novo absurda, de “deixar de falar de si”.

O académico David Mikics diz que o comando com que o soneto se inicia (“Presa”) parece um momento de brincadeira infantil, como quando, no jogo das caçadinhas, uma criança alcança outra e diz: “Apanhei-te!”. Cada linha tem dois acentos (algo que respeitámos escrupulosamente na nossa tradução, à exceção do décimo terceiro verso, por motivos evidentes), equivalendo esse duplo batimento ao duplo possível que a autora nos oferece com a inocência, de facto, de uma evidência de liberdade. Prender ou soltar parecem derivar sobretudo do vigor das palavras que enunciam esses desejos-ações. Sobretudo, a forma mental como lidamos com a forma é que nos pode verdadeiramente libertar. Mais do que trocar o lugar da oitava com o lugar do sexteto, tal como estes estariam consagrados na forma clássica do soneto italiano (ou seja, mais do que proceder apenas a uma inversão), o que Bishop faz é aumentar o espaço dentro do lugar “soneto” que está reservado à conclusão, na medida em que essa conclusão é uma ordem de liberdade. Bishop, que parece ter chegado às grandes formas tradicionais como quem não poderia ter deixado de o fazer (ou seja, por absoluta necessidade, por destino, o que, no caso do soneto talvez derive do facto de, no início da sua história, ele estar identificado com o tópico da divisão psíquica do sujeito lírico por motivos sexuais), não faz feng shui na sua cela de prisão formal, ela corrige-a, amplifica-a, complexifica-a, dá-lhe carta de alforria. É certo que a criatura em causa no soneto está dividida entre prisão e liberdade. Mas, se estiver livre, a criatura pode ir para onde quiser, pode voar “p’ra qualquer sentido”, pode até desejar, como o personagem do conto “In prison”, nada menos e nada mais que a reclusão. É essa a grande diferença.

Ao que parece, a autora queria conferir à palavra “gay” o seu sentido originário, anterior às conotações com uma determinada vivência da sexualidade (um sentido contemporâneo da antiguidade já mais mítica do que palpável da própria forma “soneto”). O poema, de facto, parece acabar mais aberto do que fechado em termos de assunto, em termos de “aquilo sobre o que fala”. Mas essa alegria iridescente, esse ser gay independentemente do sofrimento trazido pela História e pela História plasmado na palavra, tal liberdade só pode ser reconquistada quando o espelho fica vazio, ou seja, quando a morte vem retirar a forma-corpo da prisão que lhe é imposta pela forma-vida (e pela forma-sociedade). Independentemente de quaisquer considerações teológicas, e com muito mais destreza e precisão do que a maior parte da verborreia mística, Bishop consegue, neste seu soneto brevíssimo e quase desabitado por si mesma, dar uma imagem universal do conceito “alma” (ou “espírito”), descrevendo-a como nada mais que a pura alegria que só consegue existir nesse ou-topos de nenhuma divisão (nem mesmo divisão entre prisão e liberdade) que é o reino eterno e infinito da morte, esse reino no qual já não precisamos de subsistir enquanto sujeitos líricos. Curiosamente, a despeito deste discurso de anarquia metafísica, verifique-se como só a morte é ainda mais fatal do que a prisão… Um texto imortal é, aliás (e sem qualquer sentido de contradição), aquele que se torna absolutamente necessário para uma comunidade trans-histórica de leitores.

Mesmo que não queiramos abusar da ambiguidade da autora e da sua ardilosa estratégia de tudo manter em esguelha, e que em consequência coloquemos toda a nossa interpretação num limbo de alta probabilidade de erro, uma coisa nos parece certa: nestes dois textos que aqui comentámos, Elizabeth Bishop vem-nos dizer que, ao contrário do que se lê nos livros e nos poemas, a liberdade, coisa dura e sobretudo mental, mas por vezes a única coisa a que podemos aspirar, é uma brutal complexificação dos dados da experiência.

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