This is not working: either we go back to animality or we go forward to love.

25 de Fevereiro de 2014 por Pedro Ludgero

É certo que o Homem só sabe falar do Homem. Tal evidência não se prolonga, contudo, no reflexo de um amor à humanidade. Ou talvez possa esse afeto ser tão exigente e tão pouco sentimental que faz coincidir o amor ao que a humanidade poderia ser com o nojo perante aquilo que, na verdade, ela é.

Publicado pelo anglo-irlandês Jonathan Swift na primeira metade do século XVIII, o relato d’ “As viagens de Gulliver” (que faz as delícias de quem gosta de atribuir mais ou menos infância aos géneros literários) apresenta o seu sarcástico autor na vertigem da desconstrução do orgulho humano. Dito de outro modo, nada parece pôr o escritor tão fora de si como a presunção que o ser humano tem de que a sua espécie é, do ponto de vista da qualidade evolucional, a maior das espécies.

Apostado na ideia de que as terras nem sempre estão localizadas onde os mapas as situam (os mapas do espírito, claro está), Swift lança-se numa espécie de antropologia misantropa, ao mesmo tempo hilariante e fascinante, destinada a fazer vacilar a parcialidade e a fé com que todo o homem ocidental pertence à civilização do Ocidente (o suposto pináculo da evolução humana). Quando, na quarta parte do romance, o cirurgião Lemuel Gulliver dialoga com o seu amo Houyhnhnm, o último amo a que as suas viagens o conduziram (o que nos lembra as conversas de Marco Polo com o imperador mongol Cublai Cã n’ “As cidades invisíveis” de Italo Calvino), a descrição que o inglês faz da sua Inglaterra natal parece equivaler à descrição de uma terra, se não de fantasia distópica, pelo menos moralmente inverosímil. Sim, após a evocação detalhada e apaixonada dos vários reinos imaginários que Gulliver visita (Swift inventava países como Pessoa mais tarde inventará poetas), o leitor já só se pode valer de um espírito crítico e relativista quando se confronta com os indícios da própria cultura a que lhe foi dado pertencer. A fealdade que ele supunha exclusiva do Outro é-lhe agora devolvida por um espelho que foi deformado em nome da verdade. O descobridor tornou-se o descoberto.

Mas o que critica Swift em concreto na humanidade evoluída?

Precisamente na última parte do relato (o fim de um livro é precioso…), quando Gulliver passa uma estadia na terra dos Houyhnhnms, o principal problema que parece ser debatido é o desajuste da relação do Homem com a sua essência simultaneamente animal e espiritual. Na subtil construção feérica da temporalidade do romance que permite que um povo ainda desconhecido pelos europeus descobridores e colonizadores possa afinal pertencer à elasticidade de um mundo paralelo, os Houyhnhnms não são mais do que cavalos que teriam adquirido uma racionalidade indutora de civilização, enquanto os pouco domáveis Yahoos são uma versão degenerada dos homens recambiados para o estado bestial e dominados pela dita raça equestre.

Mais do que apenas sinalizar a casualidade do sucesso evolutivo humano (perspetiva bem pouco cristã, diga-se, e ainda mais brilhante quando muito faltava à ciência para chegar a Darwin), a paródia denuncia a permanência da selvajaria nas altas instâncias da civilização (a História é vista como uma tremenda epopeia de esmagamento de inocentes, ao exercício concreto do poder é-lhe retirada qualquer ilusão de magnanimidade), ao mesmo tempo que interroga a oportunidade daquelas dimensões culturais que afastaram o humano do convívio com a natureza. A elogiada inteligência dos Houyhnhnms, que com toda a certeza o próprio Swift consideraria uma hipótese extravagante, um paradigma romanesco destinado a fazer pensar, a racionalidade desses cavalos, dizíamos nós, parece dever toda a sua eficácia ao facto de se encontrar livre dos esquemas delirantes da conjetura na qual o homem tende a perder-se de todas as instâncias da sua realidade.

Num momento algo felliniano, em que o autor parece festivamente fascinado com o objeto da sua crítica, Gulliver visita a estranha Academia de Lagado na qual um conjunto de sábios excêntricos se dedica à investigação experimental de todo o tipo de disparates. Swift não nos parece um reacionário que se opusesse pura e simplesmente à evolução do conhecimento, mas é precisamente enquanto crítico da cultura que ele lamenta que um determinado modelo de conhecimento se manifeste insuficiente para o tipo de evolução que fez o homem passar de animal a intelectual.

Basta que o matemático (em sentido amplo) se engane num algarismo para que o resultado prático da sua conjetura, em virtude de estar totalmente errado, se possa tornar um dado cultural opressor. As matemáticas, aliás, não estão isentas de modas, a despeito do cinturão com que se marcializam em puras donzelas, e não raramente assumem a atitude caprichosa de quem acha a realidade uma maçada perante a correção glamourosa das ideias. E quantas vezes não passa a cultura completamente ao lado da raiz do problema a que se pretende aplicar? Swift parece mesmo um pré-crítico da lógica científica e da sua autoridade sobre as chamadas humanidades (tivesse ele vivido após Gottlob Frege, e teria conhecido novos contornos para o seu desespero), mas, se não quisermos assoberbar de conjeturas um autor que muito amamos, da leitura destas viagens imaginárias fica-nos pelo menos a certeza amarga de que anda o homem há tempo ocupado a fazer o progresso e a puta do Futuro nunca mais chega!

Repare-se que, entre o povo Houyhnhnm, os decretos produzidos pelos órgãos legisladores nunca são desobedecidos porque isso seria negar a sua racionalidade. Na natureza, isso é mesmo assim: nunca deseja a flor reproduzir-se por outro processo que não seja a polinização, nunca o abutre se enoja com o seu apetite por cadáveres, nunca a andorinha tem a ideia peregrina de não emigrar, nunca o cavalo-marinho macho tem o achaque marialva de recusar ficar grávido dos seus descendentes. Mas o passo que a espécie humana deu, precisamente o passo da conjetura, da liberdade de auto-reconstrução, se ele perder a evidência do seu caráter intelectualmente fabricado, da sua relatividade próxima do erro, e da necessidade de continuar em diálogo com os dados do real, pode facilmente ser um passo muito maior do que a perna. Não admira que o corpo humano se tenha tornado um vidrinho de cheiros e que o catálogo de doenças que o afeta tenha em grande parte uma causa cultural-civilizacional.

Ora, é precisamente na parte dedicada à Academia de Lagado que o narrador fala da ilha flutuante de Laputa, na qual os seus habitantes exclusivamente devotados à astronomia e à música têm de ser literalmente abanados para se dignarem a dar atenção a qualquer situação pragmática (como, por exemplo, manter uma conversa). Mas o mais relevante a reter da efabulação é que essa ilha que voa, onde reside o monarca do reino a que ela pertence, é uma imagem da soberania política. É um poder sobre, um poder magnético que exerce um domínio impiedoso sobre os súbditos da figura soberana, convenientemente identificada com o código da insularidade. Entramos então no essencial da crítica de Swift, no facto de essa (não-)ética da conjetura, ao invadir os meandros da ordem sociopolítica, produzir ilusões conjeturais no valor que cada homem toma para si em termos da sua posição e da sua importância na construção-sociedade. Chegámos a Lilipute.

A primeira parte d’ “As viagens de Gulliver” ficou justamente famosa e faz parte do vago imaginário mesmo daqueles que nunca leram o livro de Swift. Mas a viagem à terra dos Liliputianos tem de ser relacionada com os relatos das outras viagens para fazer pleno sentido.

O que nela se denuncia, claro, é a natureza fantasmática do tamanho social de cada indivíduo. Em Lilipute, Gulliver é um gigante, mas em Brobdingnag os outros é que são gigantes, ou seja, a importância que um homem adquire no seio de uma comunidade é um fenómeno de relatividade contingente e de modo algum revela o valor absoluto (se é que esse valor existe) do indivíduo. O anão da corte de Brobdingnag, durante largos anos ridicularizado pelo seu tamanho, já se acha grande espingarda perante um Gulliver alegoricamente minúsculo. Já o rei de Lilipute, apesar de a qualquer momento poder ser esmagado pelo agigantado protagonista destas viagens de estica-e-encolhe, nunca descura a aparência de tesão do mijo que a sua posição social lhe exige. É aliás urinando para o minipalácio desse monarca, supostamente para o salvar de um incêndio fatal, que Gulliver encarna o desejo mais ou menos consciente de todos aqueles que pretendem mijar para a ficção do poder.

A corte, esse lugar de ininterrupta intriga no qual o poder se negoceia e exerce, não é mais do que um circo onde a conjetura do tamanho social do indivíduo atinge os mais altos foros de comédia ética. Repare-se que, em Lilipute, os membros dos dois partidos políticos rivais são selecionados pelo tipo de tacões (mais altos ou mais baixos) dos sapatos que calçam… O próprio Gulliver ocupa nessa sociedade o papel de obra faraónica personificada, de um indivíduo que absorve, para si só, o grosso dos rendimentos disponíveis para uma comunidade. Há uma cena paradigmática na primeira parte do livro, em que os Liliputianos, para poderem confecionar roupa para o seu hiperbólico viajante, se veem gregos para saberem como hão de medir o seu tamanho: como se mede a importância social de um indivíduo (especialmente quando essa importância não é mais do que um exercício de especulação – exatamente a inquietação que Orson Welles nos transmitiu no seu desmesurado “Citizen Kane”)? Mas, já em Brobdingnag, Gulliver é acomodado no berço da boneca de uma menina, ou seja, passa a ser um brinquedo nas mãos de quem lhe é socialmente superior.

Quando, muito mais tarde, o viajante passa pela estranha terra de Glubbdubdribb, e lhe é concedida a faculdade de convocar, desde o Além, os homens poderosos do passado para com eles poder dialogar, Gulliver percebe que todos os textos que propuseram uma ilustração benigna do poder não passam de imposturas, que nenhum trono pode ser mantido sem profunda corrupção, que as altas posições se conseguem à custa de crimes hediondos, e que o que as árvores genealógicas dos aristocratas fazem circular é sobretudo a seiva das patologias físicas e morais que verdadeiramente definem as fátuas linhagens de que estes se orgulham.

Facilmente se percebe que, neste seu clássico, Swift trabalhou sobretudo o recurso da alegoria (note-se como ele se esmera na descrição minuciosa dos detalhes que acometem a vítima de uma situação feericamente exemplar, exatamente como Kafka fará em “A metamorfose”). A um estado de puro devaneio sociocultural, responde-se com uma fantasia literária de polaridade inversa. Uma das críticas feitas aos alienados da ilha de Laputa é o facto de eles desconhecerem os benefícios da imaginação. Ao mesmo tempo, Gulliver considera que o produto cultural mais brilhante da cultura Houyhnhnm é a sua magistral poesia. Se este livro é normalmente considerado uma paródia dos relatos de viagens, isso é porque, defendendo que a verdadeira utilidade desse tipo de relatos é de ordem filosófica, Swift tem a elegância de prescindir do efeito especial do realismo para poder entrar de chancas na matéria do espírito. Em todo o caso, há muito menos mentiras documentais n’ “As viagens de Gulliver” do que nos relatos de Marco Polo… E o que se vai sabendo agora sobre o senhor Kapuscinski…

Swift labora em torno de uma pragmática do modelo alegórico e de uma erótica do brinquedo. Os liliputianos são pequenas bonecas com as quais o herói lúdico (esse marinheiro fiel à poética dos que não podem permanecer em terra…) se distancia até à responsabilidade da observação política: não é por acaso que esses brinquedos lhe querem arrancar os olhos… Como uma criança aprende o mundo adulto através dos seus pequenos legos, dos seus jogos, das suas fantasias assumidas, Gulliver utiliza o expediente mítico da viagem inventada para poder mudar o seu próprio tamanho, para se recolocar na posição de uma criança que se revela crítica por ressurgir experimentada nel mezzo del cammin di nostra vita… Viajar é ir até onde ainda ninguém foi, ou seja, é esticar o império da verdade, esse onde um sol de papelão está sempre a nascer.

Claude Lévi-Strauss terá afirmado que o âmbito de pesquisa humanística em que foi mestre era uma criação dos povos colonizadores, incapaz de, por isso mesmo, fazer verdadeira justiça aos povos colonizados. Mas a antropologia avant la lettre d’ “As viagens de Gulliver” (pode-se ter percebido tudo muito antes da ciência tudo provar…) é capaz de nos esclarecer quanto aos benefícios que resultaram desse encontro intelectual entre humanos em diferentes fases da história do seu orgulho civilizacional. Por um lado, a antropologia, enquanto instância algo dessacralizadora (em Lilipute, Gulliver é aprisionado num templo desativado), revela, ou pelo menos deveria ter revelado, ao homem ocidental, que a sua evidente superioridade científica, tecnológica, militar e livresca não lhe garantia igual excelência em termos de organização sociopolítica. É claro que alguns dos costumes das sociedades não-modernas que os ocidentais foram encontrando nas suas viagens eram inaceitáveis à luz do pensamento da dignidade humana. É também verdade que essas sociedades não estavam ainda no ponto de perceberem que as tradições que as informavam eram o resultado espontâneo de processos de cautela adaptativa e de criatividade sobrevivente, e que não poderiam resistir como dogmas perante os saltos quânticos da História. No entanto, o facto é que muitas das tribos africanas ou de índios americanos que a antropologia estudou se revelaram muito mais equilibradas do que as nações ocidentais tanto em termos de gestão da ética e do civismo dos seus membros como ao nível da relação da comunidade com o meio natural em que ela está inserida. Ou seja, parece que certas sociedades ditas primitivas, livres da velocidade cancerígena e delirante com que a conjetura tudo deformou a oeste do Paraíso, teriam vivido a sua cultura (a sua especificidade antropológica) com uma eficácia próxima daquela que o biólogo pode observar num ecossistema natural. Aí, sim, parecia não haver gorduras no estado com que as coisas se foram socialmente organizando num lento processo de aprendizagem e de adaptação ao ambiente e ao próprio facto de sermos humanos, de sermos inventores de nós mesmos. Por que razão é gigante o rei de Brobdingnag? Simplesmente porque despreza a existência das armas de fogo ou a utilização desproporcionada da violência em situações de conflito (algo que, num efeito de calculadíssima ironia, choca o diminuído Gulliver). E porque é este Gulliver um herói literário? Porque, ao contrário da vocação que os heróis têm para a endurance mártir, ele adapta-se a cada novo e estranhíssimo contexto com o garbo de quem tem o rabo entre as pernas, de quem precisa de constantemente sobreviver.

Por outro lado, a antropologia provou em definitivo que a cultura humana não foi escrita em tábuas de pedra absoluta no peplum do Monte Sinai. Muito pelo contrário, o maravilhoso é a própria diferença de culturas: se Deus acaso se dedica à escrita, ele tem uma imaginação prodigiosa e não preconceituosa, e são tantas as linhas tortas com que os homens se tentam endireitar no seu dia-a-dia, que mais vale assumir, de uma vez por todas, que a imaginação tem mesmo de ser colocada nos mapas da realidade. Dito de outro modo, o método para os homens se organizarem em comunidade e cultura está sempre em aberto para poder ser redescoberto, para ser reinventado.

Quando não se submete aos ditames do entertainment ou do chill out, a viagem traz consigo o desejo de uma sociedade outra. Jonathan Swift usou a forma livro, a viagem enquanto puro ato criativo, como uma alavanca de distanciação da Inglaterra (pergunta-lhe a Inglaterra: “ó Swift, porque tens os olhos tão distantes?”; e ele responde: “é para te ver melhor!”). A sua superioridade moral deriva sobretudo do facto de ele ter convivido com terras e com seres imaginários, terras e seres de que a coroa britânica talvez nunca se conseguisse apropriar. Todavia, parece-nos claro que esse sonho político não era uma trip escatológica, a aspiração de um fim da história, mas o grito desesperado de quem diz, com rigor polissémico: reencontremos os nossos princípios!

Quanto a nós, fazemos parte de um clube seleto (tem apenas um sócio, parece) que defende que tanto o capitalismo como o comunismo/socialismo são propostas de civilização geradas por um absoluto transtorno conjetural. Suitable cases for treatment! Se a imaginação deveria civilizar a realidade, o presente momento exige que ela encontre, com toda a liberdade e rasgo que lhe são próprios, respostas prementes a perguntas prementes: Como me posso adaptar ao facto de ter um corpo animal e um cérebro workaholic? Como me posso adaptar ao facto de as ruas das cidades que até agora construímos serem retangulares? De, na minha língua, haver tratamento por tu e por você? De agora sabermos fazer livros, barcos e gelados? De haver estações? De as estações talvez estarem a mudar? De os conflitos serem o ócio mais velho do mundo? De ser bom dançar? Como me posso adaptar ao facto de ser HUMANO?

[Nota: o título deste ensaio é um aforismo publicado pelo seu autor na rede social Twitter a 9 de março de 2013.]

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Uma Resposta to “This is not working: either we go back to animality or we go forward to love.”

  1. Dhie says:

    Like Swift, Gulliver becomes upset with the ieicstjuns he sees in the world. If you’ve ever read Jonathan Swift’s “A Modest Proposal,” you will see how he attempts to condemn and satire the corrupt political situation of Ireland, as he suggests that they eat their children and use them, like their skin, to produce goods that will boost the economy. Swift is simply suggesting the corruptness of politics, and illustrating how horrible the social situation has developed in Ireland. Similarly, Gulliver becomes quite upset with the social situations he sees in society, that, when he comes home from his long journey, he sleeps in the barn with the horses. He was so touched and influenced by the Houyhnhnms that he does not want any part of human society, realizing its great flaws and lack of concern for the better good. Overall, both Swift and Gulliver attempt to correct or point out the problems in their respective societies.

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